O Rapto da LONDON
A Nave Espacial de luxo em M-64
CICLO MORDRED
5
O RAPTO DA LONDON
POR
NILS HIRSELAND
IMAGEM DA CAPA
GABY HYLLA
Título Original:
Die Entführung der LONDON
Tradução:
Dirceu Alvir Rudnick
Revisão:
Márcio Inácio Silva
Marcos Roberto
Formatação final para liberação no Projeto Traduções:
Márcio Inácio Silva
Capa em português
Manuel de Luques
Conversão para os formatos ePub, PDF e Mobi:
José Antonio
Publicação não comercial
O projeto Dorgon — ciclo Mordred — é uma publicação não comercial do PERRY RHODAN ONLINE CLUB e. V.
A tradução para o Português do Brasil é feita com autorização de Nils Hirseland.
Perry Rhodan® é uma marca registrada
Verlagsunion Erich Pabel – Arthur Moewig KG (VPM KG), Rastatt, Germany,
Star Sistemas e Projetos Gráficos Ltda., Belo Horizonte, Brasil
www.projtrad.org/dorgon
dorgon@projtrad.org
Em outubro do ano 1285 NCG, a luxuosa nave LONDON parte num cruzeiro pelo Grupo Local. A nova nave capitânia da Liga Hanseática Cósmica é uma nave terrana tradicional que permite ações em novos horizontes.
Perry Rhodan também está a bordo, acompanhado pelo prestigiado somerense Sruel Allok Mok de Camelot. Entre os ilustres convidados não está só a família arcônida dos Orbanashol, mas também integrantes da seita dos “Filhos da Fonte de Matéria” sob a liderança do pai Dannos.
Eles estão numa missão cósmica autoproclamada e querem seguir viagem até os cosmocratas. Uma parte deste plano é O RAPTO DA LONDON...
Personagens principais deste episódio:
Perry Rhodan – O portador de ativador celular que de repente se envolve numa aventura.
Rosan Orbanashol – Uma jovem meio arcônida que quer começar uma nova vida.
Wyll Nordment – Um terrano cabeça quente que se apaixonou por Rosan.
Sam – O somerense que apoia Perry Rhodan.
James Holling – Capitão da LONDON.
Pai Dannos – O guru da seita que quer ascender para a fonte de matéria.
Attakus, Spector e Thorina Orbanashol – A terrível família de Rosan.
Aurec – Um saggittonense que explora um estranho setor estelar.
Rodrom – A encarnação da poderosa entidade MODROR.
O sequestro da LONDON
15 de outubro do ano 1285 NCG
O comandante James Holling sentou-se em sua cabine e agitou uma colher em sua xícara de chá. Sonhador, ele se comparou com as pequenas ondas do redemoinho circular.
Holling ainda refletia sobre a demissão de seu primeiro-oficial Wyll Nordment. Ele sempre foi muito próximo dele, afinal ele tinha sido o mentor de Nordment. O plofosense sabia que a carreira de Wyll na Liga Hanseática Cósmica tinha acabado. Por que esse idiota teve que se atracar com os Orbanashol? Ele sabia muito bem que Gaton não entendia de diversão nesse sentido. Da mesma forma que o seu trabalho como primeiro porta-voz hanseático estava em risco, mas ele esperava poder usar o voo inaugural da LONDON para persuadir o clã Orbanashol a investir em ações da Liga Hanseática. Não que ele não compreendesse o seu ex-primeiro oficial, Rosan realmente representava uma tentação diabólica para qualquer rapaz. Mas Wyll deveria saber que a relação de um simples cidadão da LTL com a única filha do atual chefe do Khasurn dos Orbanashol, mesmo que ela fosse apenas uma mestiça arcônida, era para a atual aristocracia arcônida uma provocação sem limites.
Holling lamentou pelos ideais perdidos da sua juventude. Naquela época, ele lutou pela liberdade da Via Láctea e mais de uma vez ele arriscou sua vida por ÁRIES. Depois de finalmente terem conseguido acabar com a Idade das Trevas no domínio de Monos, ele tinha esperança de que, finalmente, a paz e a prosperidade na Via Láctea encontraria seu caminho.
Porém a história fora diferente. A galáxia fora novamente abalada por uma crise após outra. Primeiro os linguides, em seguida, a ameaça da Paresia do hiperespaço que provocara a paralisação de toda a tecnologia 5-D. Um pouco mais tarde, a expedição chegara ao Grande Vazio, e logo depois teve o perigo do Arresum, o lado “negativo” da nossa membrana universal foi eliminado. Mas isso não foi tudo. No fim de seus primeiros cem anos de vida, ele também precisara sobreviver ao risco Inprint, só para depois ver como os galácticos se dividiram em três blocos em conflito.
Na Terra e nos mundos partidários da LTL comemoravam o seu ressurgimento e imitava o progresso que ocorrera quando os mundos do antigo Grande Império estavam em pleno andamento.
Perry Rhodan e seus companheiros tiveram que deixar a Terra e a LTL sem lutarem para demagogos do calibre de Buddcio Grigor.
Para Holling isso fora igual a uma deserção.
Nesta situação, ele ainda fizera uma última tentativa de parar a desastrosa evolução. Através de suas antigas relações na época de ÁRIES ele pedira uma entrevista com Homer G. Adams e, em seguida, conheceu o antigo porta-voz hanseático. Quase implorando, ele pedira para Homer assumir a liderança da Liga Hanseática e estabelecer um contrapeso à política nacionalista da Administração LTL. Mas o imortal se recusara e o informara sobre o Projeto Camelot. Adams lhe fizera uma oferta para que ajudasse a construir a nova organização dos imortais. Mas ele se recusara, porque não entendia toda a política dos portadores de ativador. Em vez de se opor ativamente ao chauvinismo e ao nacionalismo, eles tinham preferido se retirar amuados em seu próprio campo de jogo. Fora nesse momento que eles finalmente romperam com os imortais.
Nos anos seguintes, ele assumira importantes funções de comando e, por fim, fora o responsável pela formação dos jovens na Academia Hanseática da Liga Hanseática. Nesta função, ele vira uma oportunidade de passar os velhos ideais que outrora dominaram a Liga Hanseática Cósmica durante o treinamento de jovens oficiais e da tripulação. Especialmente para Wyll Nordment, quem mais o machucara, pois ele o considerava como o filho que nunca teve. Ele tinha acreditado no jovem terrano, no qual se via quando jovem, idealista, forte de espírito e possuía um forte sentimento de justiça. Mas foram precisamente essas qualidades que levaram Wyll à ruína. Por que ele também teve de meter-se com os Orbanashol?
“Por que foi você mesmo quem o trouxe aqui, velho tolo”, respondeu ele mesmo a sua pergunta.
Num momento de ameaça, viu outra vez as brasas do fogo da juventude apagar-se nele. Cinquenta anos atrás, ele teria escorraçado Gaton e todo o seu bando de bajuladores de sua nave, mas agora ele estava apenas cansado. Ele sacrificou o auge de sua vida na luta pela liberdade e pela justiça, pelo quê? Ele levantou-se antes do fim de sua vida e continuou, pois ele não tinha ilusões, na melhor das hipóteses, teria só mais alguns anos. Seria bom saber em sua velhice que seus ideais, nos quais ninguém mais estava interessado nos dias de hoje, estavam seguros? Mas porque ele não estava completamente certo disso. Wyll teria que pagar pelas consequências de seu comportamento destemperado sozinho. Pela primeira vez em sua vida ele estava pensando em si mesmo. Porém...
Mais uma vez ele mexeu na xícara de chá e tomou um gole. E mais uma vez seus pensamentos começaram a girar em círculos. Meio inconsciente, ele registrou o zumbido melódico do servo de sua cabine.
— Entre — murmurou ele, distraidamente, sem olhar para a tela do display que se ativou com o sinal.
Com um sibilo suave a porta deslizou para dentro da parede, isso levou Holling a dar uma olhada na escotilha. Um tópsida e uma criatura insetoide do povo dos volatenses entraram na cabine. Irmão Cech-Nor e o irmão U-Ululu-U eram os guarda-costas do pai Dannos, o líder religioso da seita "Filhos da Fonte de Matéria".
Eles não cumprimentaram Holling, mas revistaram a cabine do capitão. Holling ficou surpreso.
— Posso perguntar o que é isto, senhores?
Irmão Cech-Nor caminhou em direção a Holling. A fina língua da criatura lagarto saiu da boca com dentes arreganhados e voltou novamente.
— Medidas de segurança antecipadas. Pai Dannos é um alvo. Muitas tentativas foram feitas contra sua vida — respondeu o tópsida sem emoção.
Ele fez um sinal para o volatense. O insetoide foi até a porta e deixou escapar um som estalado. Só então o pai Dannos atravessou a soleira da porta. Ele era escoltado pelo terceiro irmão, o ertrusiano Toss. O terrano adaptado ao ambiente teve problemas para espremer-se através da entrada.
O terrano careca usava a longa túnica cáqui, como sempre. Os olhos estavam ocultos por óculos escuros.
Em seu pescoço pendia o amuleto dourado. Holling olhou para ele mais de perto. Ele mostrava uma galáxia espiral. Holling inclinou-se para trás em sua cadeira descontraidamente. Ele presumiu que Dannos precisava desta obra-prima.
— Saudações, irmão. Raiou mais um dia fatídico — anunciou o guru. Com um leve sorriso alongou-se em seus lábios finos, enquanto falava estas palavras.
***
A monótona imagem avermelhada das ondulações do hiperespaço parecia permanentemente fatigante. O novo primeiro-oficial Evan Rudocc esfregou os olhos embaçados. Hoje não era o seu dia. Junto com o operador de localizador Garl Spechdt e o oficial de comunicação Mugabe Sparks estavam de serviço na central de comando da LONDON.
— Uma calma manhã — disse Sparks.
Rudocc olhou para o terrano de pele escura que era duas cabeças mais alto que ele. O primeiro-oficial sofria com sua baixa estatura. Com apenas 1,67 metro, nascido no estado da Federação Terrana da Irlanda, ele não era verdadeiramente um gigante.
— Ainda assim, a sintrônica ainda não funciona corretamente — comentou Rudocc e tocou os dedos numa interface da unidade de processamento central da LONDON.
Garl Spechdt encolheu os ombros. O chefe de localização apontou para a tênue imagem do hiperespaço.
— Nós também encontraremos o nosso caminho mesmo assim. Andrômeda ainda podia ser vista a olho nu na última saída de orientação — declarou ele satisfeito.
Rudocc não estava com vontade de ser simpático. Hoje ele estava mal-humorado. Desolado, ele cravou os olhos naquela antiguidade, um antigo leme de madeira, que os marinheiros costumavam realmente usar para controlar um navio.
— Eu não planejava tornar-me primeiro-oficial dessa maneira.
O pequeno Spechdt concordava com seu companheiro.
— Nós também lamentamos pelo pobre Wyll. Azarado no amor e, ainda, arruinou a carreira. Eu espero que ele não faça nenhuma estupidez.
— O mais importante é que vocês não façam nenhuma estupidez — os três ouviram de alguém que acabou de entrar na ponte.
O terrano com o rosto angular e expressão solene segurava um radiador térmico! Ele era seguido por mais quatro terranos, também armados. Estes dirigiram as armas para os três oficiais.
— O que é isso? — Rudocc perguntou abruptamente.
— O que lhe parece? — disse o homem que era conhecido como Craig Anbol.
***
— Por favor, continuem sentados — pediu Holling educadamente.
Dannos sentou-se na poltrona de couro acolchoada. Ela rangeu quando ele se sentou. Tal como acontecia com quase todos os móveis que não eram construídos com energia moldável. O porta-voz hanseático Arno Gaton queria que os passageiros tivessem a sensação das eras passadas. Portanto, ele atribuía grande importância a isso, ao ponto de que a decoração fosse composta de materiais reais e não de virtuais.
— Você pediu uma entrevista, meu irmão? — começou Dannos.
Holling acenou com a cabeça.
— Essa história é bastante embaraçosa para mim, mas eu, como comandante da LONDON, tenho que seguir em frente — disse Holling, evasivo.
— Eu entendo. O que é isso? — quis saber o pai dos Filhos da Fonte de Matéria.
— Uma senhora – pouco interessa quem ela é – há pouco tempo ela veio até mim e me disse que você estava tramando algo. Ela falou de morte e de violência a bordo da LONDON. Ela era de suas fileiras, pai Dannos!
A expressão de Dannos permaneceu inalterada.
— O que você espera que eu responda?
— A verdade! — exigiu Holling, friamente.
Dannos cruzou as mãos e fez uma análise dos olhos do comandante da LONDON. Então ele pegou uma memória de armazenamento e ativou. E colocou o gravador azulado em forma de pino em cima da mesa. Com a mão direita, ele enfiou a mão no bolso para pegar alguma coisa. Holling olhou desconfiado. Por um momento ele acreditou que Dannos sacaria uma arma. Para seu alívio ele tirou apenas um maço de cigarros do bolso do paletó e acendeu um.
Depois de uma longa e agradável tragada – ele disse: — Tudo bem!
***
O engenheiro-chefe Alex Moindrew estava sentado há horas em seu posto de comando, que ligava a galeria circundante com a sala de máquinas por uma espécie de passarela de energia moldável. Por uma interface acústica ele podia controlar toda a sala de máquinas da cabine moldada na extremidade do convés. Mas no momento ele só estava interessado na central da sintrônica que estava infectada por um vírus. Por várias vezes ele tentou isolar o malware no sincomunicador, porém, sem sucesso até agora.
Exausto e irritado com as falhas, Moindrew olhou para os blocos de máquinas azuladas que se estendiam ao longo de vários andares do complexo. No centro, os conjuntos blindados especiais brilhavam num forte tom vermelho rubi, que era característico do inconite utilizado. Ali, também, o capricho do primeiro porta-voz hanseático funcionava. Ele insistiu que nas entranhas da LONDON tudo fosse feito de “aço” de alta qualidade, seu posto de comando era a única concessão, ali simplesmente não havia nenhuma matéria sólida deformável.
Tecnicamente eu estava no centro nervoso da LONDON. Os moduladores de frequência e hipertransformadores energéticos dos propulsores metagrav, os vários subsistemas dos dispositivos de comando sintrônicos e os blocos de armazenamento do anel dos gravitraf, todos se reuniam ali. Nesse meio tempo, o robô utilitário MODULA flutuava sobre seus campos antigravitacionais entre os blocos de dispositivos individuais para frente e para trás. Moindrew não podia deixar de sorrir quando ele se lembrou do dia em que Gaton recebera o seu pedido de compra. O porta-voz hanseático ficara, literalmente, espumando de raiva, mas nesta questão seu ponto de vista prevalecia sobre o dele. O contrato para fornecimento dos 30 robôs fora concedido a TAXIT. Em razão da odiada organização Camelot também ter contribuído para a construção e a operação da LONDON. Finalmente, seu olhar examinou o macacão branco usado pelos tripulantes que trabalhava na sala de “máquina”, olhou entediado para os visores de todos os consoles de controle e, que na verdade, era totalmente desnecessário. No entanto, Gaton tinha insistido em pessoal humano na “sala de máquinas”, uma vez que, até mesmo nos navios antigos havia homens que trabalhavam ali.
Moindrew voltou-se para seu console de controle, no qual diversos holovisores estavam organizados sob a forma de um semicírculo em torno dele. Era neste sistema que ele obtinha uma visão geral dos vários departamentos técnicos e verificava o funcionamento de todos os sistemas da nave, como o seu posto de comando possuía uma sintrônica autônoma e aparentemente ainda não estava infectada pelo vírus. Mais uma vez, ele procurou uma maneira de contornar o sincomunicador da sintrônica central e fazer contato através da sintrônica do painel de controle da máquina.
Porém, no meio de sua tentativa, ele foi interrompido por cinco homens armados que invadiram e a ocuparam a sala de máquinas.
Quando Moindrew viu os terranos armados, ele protegeu os consoles e reuniu os técnicos. Mais uma vez sorriu ironicamente, ele poria fim nisso imediatamente. Sem hesitar, deu um conjunto de comandos a sintrônica, instruindo os robôs MODULA a deterem todas as pessoas não autorizadas e protegerem-se deles. Ele esperou ansioso pela execução das suas ordens. Mas nada aconteceu. Os robôs continuaram impassivelmente o seu trabalho.
Um terrano separou-se do grupo e veio em sua direção. Agora Moindrew o reconheceu, ele pertencia aos Filhos da Fonte de Matéria! Quando ele se virou, olhou diretamente para a embocadura de uma arma térmica.
***
— A verdade, meu irmão. O que você vai conseguir com isso. Por favor, ative o intercomunicador.
Com sua impressão digital Holling forneceu autorização e, assim, ativou o acesso ao sistema de comunicação a bordo. O sinal hanseático apareceu no visor. Ele olhou para Dannos interrogativamente. De alguma forma, ele achava tudo isto muito engraçado. Este guru era muito misterioso e parecia cada vez mais ameaçador.
— E quem eu devo chamar? — perguntou o capitão, intrigado.
— A sala de máquinas e a ponte de comando — respondeu Dannos.
Holling objetou.
— Que vantagem espera obter com isso?
— Você está prestes a descobrir.
Seus dedos deslizaram sobre os dois primeiros ícones na tela negro-esverdeada. A ligação foi criada. O monitor se dividiu em duas metades. No lado direito aparecia o rosto de Moindrew e no esquerdo, o de Evan Rudocc.
Ambos não pareciam muito satisfeitos. Neste momento Holling hesitou, enjoado. Mas, ele reprimiu de imediato esse sentimento nauseante. O que estaria acontecendo?
— Algo a relatar? — perguntou Holling, casualmente.
Os dois permaneceram calados por alguns instantes e depois o novo primeiro-oficial respondeu: — Sim, senhor. Cinco pessoas estão na ponte ilegalmente. O mesmo quadro se repete na sala de máquinas e no central de segurança. Eles estão armados.
Holling levantou-se e bateu os punhos sobre a mesa, que ressoou como uma forte com uma corneta plofosense.
— O que é isso, Dannos? Você está completamente louco?
Dannos reagiu calmamente à explosão de ira do comandante e tragou provocativo o seu cigarro. Ele soprou a névoa azul em direção ao capitão. Involuntariamente Holling inalou o cheiro de canela da fumaça do cigarro. Ele sentiu-se tonto e percebeu que não era um cigarro normal, mas com um efeito psicodélico. Talvez ele fosse à explicação para todo este absurdo. O alto sectário. Holling balançou a cabeça para afastá-la.
— É melhor você se acalmar, capitão. Agora a LONDON está em minhas mãos. Eu posso ocupar todos os pontos estratégicos importantes — disse o guru, impassível.
Holling deixou-se cair em sua poltrona novamente. Ele viu o espanto dos cinco sectários. Realmente Dannos estava falando sério.
— Onde você conseguiu as armas? — perguntou ele.
— Um de seus tripulantes trabalha para nós. Ele exerce suas funções na central de segurança. Foi de lá que conseguimos as nossas armas. Com isso, nós também temos o controle sobre todas as armas a bordo e você está indefeso. Nós planejamos esta operação cósmica há muito tempo. Mas agora eu quero que você me ouça atentamente. Eu não vou repetir tudo de novo.
O pai dos filhos das fontes de matéria amassou o cigarro no chão com o calcanhar. Ele inclinou-se para trás e cruzou as mãos novamente.
— Primeiramente, todos os membros da tripulação, e eu quero dizer todos, devem ser informados sobre o sequestro. Além disso, até mesmo Arno Gaton. Todos os passageiros, incluindo Perry Rhodan, deverão ser mantidos na ignorância. Nós ocultamos uma bomba a bordo desta nave e, se minhas ordens não forem cumpridas, podemos levar nossas ações ao extremo. Além disso, todos os nossos adeptos receberão um uniforme, para assim, poderem controlar melhor a espaçonave. Seus tripulantes não deverão dificultar o nosso trabalho e continuarão a exercer as suas atividades normais.
— Os passageiros não devem saber sobre o sequestro. Pânico em massa se iguala a extinção em massa! Se um único do nosso pessoal simplesmente desaparecer, vou matar dez passageiros. Agora, você me entendeu?
Holling olhou horrorizado para Dannos. Por um breve instante, ele quis se rebelar contra ele. Quem é esse sacerdote doido para lhe dar ordens a bordo de sua espaçonave? Porém, isso devia ser uma brincadeira.
Mas Holling era suficientemente realista para não deixar de interpretar a situação. De fato, Dannos tinha conquistado o poder sobre a LONDON. Certamente ele não desistiria do seu plano, o que sempre foi um, simplesmente porque o comandante da LONDON bateu o pé. Neste momento, ele tinha que obedecer Dannos, mesmo que relutantemente.
— Sim, eu entendi!
Ele encolheu-se em sua poltrona, encostou-se a parte de trás e mordeu o lábio inferior até que ele começasse a sangrar.
No entanto, Dannos parecia completamente soberano. Ele balançou-se para trás e para frente completamente relaxado na poltrona de couro.
— O curso será alterado. Estamos a caminho do nosso destino — ordenou o guru.
— Que tipo de destino? — perguntou o comandante.
— Isso, você vai descobrir quando chegar a hora.
Mais uma vez, Holling perdeu a paciência. Ele levantou-se e bateu novamente com o punho na mesa. Gritou para Dannos e pediu-lhe que parasse imediatamente com esta loucura. Holling exigiu que Dannos depusesse as armas imediatamente, antes que provocasse sérias dificuldades.
Agora Dannos também se levantou e tirou os óculos. Seus olhos escuros se fixaram em Holling. O capitão manteve seu olhar, o duelo não demorou muito. Então Dannos falou bruscamente: — Lembre-se de uma coisa: se você se revoltar contra mim, os passageiros vão morrer. Você só está vivo por meu favor. É melhor cooperar comigo, porque você é substituível. E quando você não me servir mais, então, haverá outros. Agora eu possuo a onipotência a bordo. Eu andei por estranhos caminhos e agora possuo o equilíbrio das energias cósmicas em mim. Os poderes supremos e Deus estão comigo!
Holling se benzeu.
— Isso é blasfêmia!
— De qualquer forma. Você pode estar certo: A bordo desta nave eu sou o deus!
Dannos contemplou Holling com um sorriso estranho, recolocou seus óculos e deixou a cabine com seus irmãos.
Holling levou vários minutos para processar o choque.
Ele foi até a central de comando e ordenou aos seus oficiais que o encontrassem na sala de conferência. Eles examinaram detalhadamente a situação e começaram a informar todos os 1.200 tripulantes.
Holling se comprometeu a informar Gaton pessoalmente sobre isto. O porta-voz hanseático quase teve um colapso. Ele xingou a todos e destacou seu sacrifício.
***
Dannos retornou a sala de conferência na parte da tarde. Desta vez, Evan Rudocc, Garl Spechdt, Mugabe Sparks, Bogo Prollig, Hostav Tablot — o médico da nave, Alex Moindrew, Arno Gaton e Holling estavam reunidos ali.
A sala estava cheia. Mas o epsalense Prollig ocupava completamente o sofá de couro marrom, parecia que eles afundariam no chão a qualquer momento sob o peso do chefe de segurança. Arno Gaton encolheu-se nervosamente numa cadeira, o médico da nave Hostav Tablot olhava para o copo. Spechdt, Rudocc e Mugabe acomodaram-se em silêncio.
Novamente Dannos estava acompanhado por seus irmãos.
Ele olhou ao redor da sala, sorrindo em grande serenidade. — Todos vocês estão transmitindo uma impressão de derrota, meus irmãos? Por que isso?
Gaton se levantou.
— Quais são suas exigências? Quanto? — começou ele.
Dannos levantou as mãos, suplicante.
— Bens vulgares não me interessam, embora alguns dos meus filhos tenham preferência por coisas materiais e, portanto, num futuro próximo, uma nota de resgate vai chegar à sede da Liga Hanseática. Nossos objetivos são muito mais transcendentes. Estamos num caminho cósmico. Os Filhos da Fonte de Matéria são uma unidade cósmica que vai se tornar uma entidade única. A entidade cósmica a caminho de uma fonte de matéria!
Seus olhos arderam fanaticamente.
— Lunático — murmurou Gaton.
Dannos olhou para ele com os olhos arregalados.
— Eu acredito que você julga mal a sua posição! — gritou ele.
Ele começou a tossir e cambaleou. Seus irmãos o apoiaram e deram-lhe algo para beber. Dannos se acalmou.
— Um dia nós seremos um cosmocrata, Dannos e então viveremos em nosso paraíso! Mas de qualquer maneira você não consegue entender isso — continuou ele.
Desta vez, os outros ficaram em silêncio.
— Vejo que você compreendeu — disse o guru com satisfação.
— Para onde o curso foi fixado? — perguntou Holling.
Moindrew tomou a palavra. — E quanto ao defeito na sintrônica? Provavelmente isso será um empecilho para você.
Dannos acenou com a cabeça.
— Não, ela não é. Herban Livilan!
Só agora o pequeno e enfeitado hasprone Herban Livilan Arkyl entrou na cabine. Ele olhou para a tripulação da LONDON, como se fossem estudantes estúpidos. Dannos apresentou-o aos oficiais como um gênio das sintrônicas.
— Muito bem — começou Herban Livilan, satisfeito. — É a natureza do meu povo, entendermos mais sobre sintrônicas do que do nosso pelo curto. Eu era a pessoa que alimentava o vírus. Sem muitas dificuldades em suas frouxas medidas de segurança, isso me ajudou um pouco. A criança come da minha mão.
— As portas abertas no firewall... — murmurou Moindrew. Em seguida, o seu olhar procurou o de Gaton.
— Arno, eu tenho...
— Cale-se, Alex! Certamente isso é muito importante — interrompeu o porta-voz hanseático.
Herban Livilan começou a rir resmungado.
— Sim, sim, certamente, é muito importante! É sempre reconfortante poder confiar em alguém, hein Arno?
Gaton olhou perplexo para a hasprone, antes de perguntar, gaguejante: — Em quem podemos confiar?
Mais uma vez, ressoou a risada resmungada que soava maldosamente.
— Você realmente quer saber? Porém, você precisa me pedir isso com jeito, outra vez e eu te direi, portanto?
— Sim, sim – por favor...
— Bem, eu não queria que fosse assim...
Novamente, Livilan fez uma pausa, depois, enfatizando cada palavra, ele continuou:
— Em sua infinita, única e abrangente incompetência e naturalmente estupidez, Arno!
Gaton estava pálido e impotente caiu numa poltrona vazia, enquanto o guru da seita e seus seguidores irromperam em gargalhadas.
Finalmente, Holling tomou a palavra: — Todavia, você é o homem de quem Hiretta me alertou ontem!
— Como você é ingênuo, plofosense! Tudo isso é apenas um pequeno jogo com você, comandante — respondeu o especialista em sintrônica, divertido. Ele balançou a cabeça e revirou os olhos, aborrecido. Aparentemente, ele esperava mais inteligência de Holling.
Todos os responsáveis a bordo se mantiveram em silêncio. Outra vez Dannos voltou a falar.
— O destino da LONDON está em minhas mãos cósmicas. De agora em diante eu sou o dono da vida e também da morte de todos a bordo desta nave, eu sou o teu deus! Sou benevolente ou rigoroso, responsável por vocês.
Com estas palavras, Dannos afastou-se com seus seguidores.
***
Os oficiais da nave discutiram impetuosamente por alguns minutos, mas não deu em nada. Eles sabiam que Dannos estava certo. Holling avaliou que o guru da seita era extremamente fanático e perigoso. Ele dissuadiu os outros de uma resistência.
Prollig o chefe de segurança sugeriu que alertassem os passageiros e, depois, escorraçassem esse pessoal da nave, porém, ele não levou em consideração que muitas pessoas inocentes poderiam morrer.
Além disso, exclamou o doutor Hostav Tablot, ninguém sabe quem pertence aos Filhos da Fonte de Matéria.
A reunião terminou sem resultados.
Holling retirou-se para a ponte, que era cuidadosamente vigiada pelo pessoal de Dannos. Ele era um prisioneiro em sua própria nave e, pelo menos, ele já esperava por isso, talvez pudesse obter a ajuda de um certo terrano a bordo.
Perigo iminente
Era noite. A iluminação natural fora substituída pela artificial nos “conveses exteriores” para que os passageiros tivessem a sensação visual que o dia 15 de outubro do ano 1285 NCG chegava ao fim.
A LONDON voava a velocidade subluz. Através da cúpula de vidro e das numerosas janelas as incontáveis galáxias eram visíveis. E a mais brilhante de Andrômeda. Mas nenhum dos passageiros parecia notar que a LONDON se afastava de Andrômeda e rumava em direção ao Triângulo.
Na hora do jantar a maioria dos hóspedes se mantinha nas salas de jantar e restaurantes. À mesa do capitão havia um silêncio incomum. Além de Holling e de Gaton também estavam sentados os quatro Orbanashol, o banqueiro Jakko Mathyl, Perry Rhodan, Sam e dois outros passageiros que se chamavam Shel Norkat e Ulryk Wakkner.
Os Orbanashol demonstraram claramente o seu descontentamento com os dois, aos seus olhos, terranos comuns.
Rosan não deu uma bocada sequer. Ela remexia apaticamente a sua salada zukkor.
— O que é isso, querida? Por que você não come alguma coisa? — perguntou Attakus.
— Eu não estou com fome — respondeu ela, secamente. Ela olhou para Holling. — O que aconteceu com Wyll Nordment?
O comandante limpou a garganta. — Ele foi demitido e foi alojado num convés inferior. Lá, ele foi colocado numa cabine — disse ele com perceptível pesar.
Attakus bebeu satisfeito o seu copo de Namahoora. Ele soltou um som prazeroso.
— As bebidas arcônidas ainda são as melhores — ele estava tentando mudar de assunto.
Porém, Rosan não desistiu.
— Isso realmente era necessário? Ele é um excelente oficial e é um desperdício simplesmente demiti-lo. Attakus já não está mais com raiva dele. Nós até já esquecemos o incidente.
Ao ouvir esta frase, Spector quase engasgou com os bolinhos de sherk. Ele tossiu, pigarreou e limpou a boca meticulosamente com o guardanapo vermelho.
— Minha enteada está muito enganada! Estamos satisfeitos com o castigo — embora ficasse óbvio que ele quisesse ainda mais rigor.
Rosan resignou-se. Ela estava muito triste por Wyll. Afinal, ele apenas começara a discussão porque sua causa. Obviamente, ele tinha caído de amores por ela. Rosan não sabia se ela abrigava os mesmos sentimentos por ele, mas definitivamente havia um profundo afeto. Talvez até mesmo amor. Neste momento, ela estava apenas confusa. Tanta coisa acontecera nos últimos dias, em que ela estava a bordo da LONDON. O noivado com Attakus, as ameaças de Spector a Wyll, que comoventemente se esforçava para se aproximar. Ela apenas queria fugir com ele.
Ela refletiu um pouco e concluiu que precisava nutrir sentimentos profundos se quisesse fugir com ele. Ou apenas porque ele lhe oferecia uma oportunidade de sair de sua prisão dourada? Mas no momento, ela não tinha nenhuma chance. Desta forma, ela só pioraria a situação de Wyll, se continuasse a encontrar-se com ele na LONDON. Spector nunca os deixaria em paz.
Ela olhou em volta e observou atentamente os convidados que se sentavam a mesa com eles, sobre os autênticos pratos brancos terranos ou a porcelana arcônida. As janelas elegantemente decoradas vieram de um famoso vidraceiro aconense, imediatamente Rosan as reconheceu e se lembrou das monótonas e intermináveis discussões entre sua mãe e suas amigas. Naturalmente, os arcônidas sempre foram de opinião que copos, taças e xicaras arcônidas eram muito melhor fabricados que os de outros povos.
Rosan achou os óculos bonitos e delicados. Minúsculas partículas de poeira iridescente brilhavam no vidro em cores diferentes.
Koliput, o patriarca dos mehandor e o embaixador tópsida vieram à mesa e cumprimentaram os presentes. Terek-Orn era um tópsida culto e gentil. Ele era diplomático, mas também parecia arrogante e frio. Mas isso era provavelmente apenas da natureza dos tópsidas. Ele acenou para Perry Rhodan, casualmente uma única vez, como se não fosse nada de especial.
A notícia de que o imortal estava a bordo já se havia espalhado pela nave. No caminho até o salão, Rhodan até distribuiu alguns autógrafos. Muitos ainda falavam respeitosamente de seus serviços para com a Terra. Entretanto, este reconhecimento fora habilmente estragado pelas propagandas conduzidas pela LTL nas últimas décadas.
Nesse meio tempo, o somerense Sam conversava animado com o tópsida e o mehandor, enquanto Rhodan olhava para a imagem fora da grande janela. Suas pálpebras se estreitaram. Ele olhou pensativo para Rosan, então fez uma expressão de surpresa.
— Holling porque estamos nos distanciando de Andrômeda? — perguntou ele, finalmente.
O plofosense procurou a ajuda em Gaton, Holling fez um sinal de que explicaria.
— Bem — começou ele, hesitante. — Nós estamos tão adiantados que, antes, faremos uma viagem em torno de Andrômeda e depois voaremos para Tefrod. Nós estamos oferecendo aos passageiros mais um dia e uma tarde de prazer a bordo da LONDON.
Rhodan permaneceu em silêncio. Para Rosan isso parecia um absurdo. Provavelmente, voar em torno da galáxia inteira demoraria muito mais do que um dia, supôs ela, embora não estivesse tão familiarizada com propulsores metagrav e fatores ultraluz. Ela notou a incerteza nas entranhas do comandante e do porta-voz hanseático. Eles estariam escondendo alguma coisa?
— Gaton, eu gostaria de falar com você depois do jantar. É importante — pediu Rhodan.
Primeiro Gaton pareceu não entender. Então ele percebeu que Rhodan foi um dos poucos que percebeu isso. Ele concordou.
A banda tocou o Concerto para Piano Nº 21 de um conhecido compositor terrano.
Ulryk Wakkner estava encolhido em seu assento. Aborrecido, o terrano ainda não tinha falado uma palavra. Ele também era um funcionário de finanças galáctico e Jakko Mathyl era seu superior.
— Ah, Beethoven. Bom compositor — disse Mathyl, pouco espirituoso. Até mesmo Rosan o conhecia bem, embora desde a morte de seu pai, ela não ouvia mais música terrana, obviamente, porque isso era proibido em Árcon.
Sam deixava uma impressão de resignação.
— A peça é de Wolfgang Amadeus Mozart. Este é o Concerto para Piano Nº 21 em C maior, de acordo com o catálogo Koechel 467, o Segundo Andante. É lamentável que os terranos nem sequer saibam sobre sua própria cultura. Mas esta é a situação típica de toda a Via Láctea. Educação e cultura deram lugar a torpe ganância e a busca insensata por mais galax. Pelo menos nisso, os povos da Via Láctea estão de acordo.
O barbudo Jakko Mathyl riu. — Claro. Nisso com razão. O poderoso galax garante a democracia e a liberdade. Quem faz o quê, já é alguma coisa. Agora eu estou muito mais elevado do que, por exemplo, Ulryk Wakkner que pode ser classificado como meu empregado. Para ele, o dia de hoje é o ponto culminante de sua carreira, pois ele nunca mais será encontrado em companhias tão exclusivas outra vez.
Mathyl bateu no ombro do coitado do Wakkner. Este forçou um sorriso, enquanto tentava, em vão, manter o macarrão em sua boca.
Sam presenteou Mathyl com um olhar ininteligível e balançou a plumagem azul.
— Você só pensa materialmente Mathyl. Contanto que o crescimento seja real, os preços subam e o lucro esteja garantido, sua vida estará preenchida. As necessidades de outros seres vivos não lhe interessam, não é?
Mathyl fez um gesto defensivo.
— Isso, você não pode dizer. Nossos funcionários são bem pagos. Eles não têm nada. Para isso, eles têm que trabalhar, parar só o necessário e realizar horas extras não remuneradas, mas isso qualquer empregador bem-sucedido exige. Como requer a palavra empregador, por outro lado, os empregadores são poucos e os empregados nunca deixarão de existir. Portanto, os trabalhadores devem ser flexíveis e adaptáveis... e, do mesmo modo, dispensar alguns galax para o bem-estar público.
Sam não olhou amigavelmente para ele.
— Porém, no setor privado nem todo mundo tem a chance de fazer algo de sua vida. Se eles não conseguiram chegar ao topo é apenas por sua própria culpa. A economia galáctica funciona desta forma, e isso é uma coisa boa! — exclamou Mathyl grosseiramente.
Provavelmente Ulryk Wakkner ainda não sabia o que responder, enquanto Shel Norkat conversava com James Holling e o questionava como era a vida nas espaçonaves e sobre os astronautas. Rosan suspirou e pediu outro copo de vinho jagryllianiano.
— Que a criatura gorda da gula esteja contigo — cumprimentou Turkalyl Obbysun, o enviado dos julziischs, e sentou-se no último assento vazio, próximo a Ulryk Wakkner. Ele pegou alguns frutos de gnurgha e um licor zuygluyrii. A garçonete serviu prontamente os legumes cozidos. Ela colocou as raízes listradas de verde e violeta em forma de cenoura em pé numa pequena grelha da mesa. Através da energia química os frutos de gnurgha começaram a saltar e rolar. Com risos estridentes, o julziisch tentou apanhar o alimento com seu garfo.
— Oh, isso é engraçado. Cenouras andantes — disse Ulryk Wakkner e riu. Ele olhou ao redor, mas, além de um olhar de pena de Rosan, ninguém parecia prestar atenção nele. Wakkner pigarreou e se dedicou a sua sobremesa, enquanto Obbysun erguia triunfalmente uma fruta gnurgha de oito pontas, balançava-a no garfo preto e a empurrava alegremente em sua boca.
Um pequeno jovem unitro de pernas compridas correu até a mesa.
— Você é o famoso Perry Rhodan? — perguntou ele com a voz nasalizada.
O imortal riu e confirmou a pergunta. O menino levantou uma caneta e um livro de histórias. Rhodan pegou ambos. Era um livro de imagens sobre As Aventuras de Rhodan em Andrômeda. Ele pegou a caneta e escreveu uma dedicatória para o unitro.
Este agradeceu desajeitadamente e correu ao redor da mesa, mas tropeçou e caiu no tapete vermelho-escuro artisticamente decorado com padrões arcônidas.
Rosan levantou-se e o ajudou a se levantar novamente. O garoto entregou-lhe um bilhete em sua mão e saiu correndo. Rapidamente ela escondeu o pedaço de papel.
Thorina fez um comentário depreciativo sobre os unitros e o fórum de Raglund. Aparentemente os outros não deram ouvidos ao insulto.
Rosan virou-se de lado e abriu o bilhete. Era um convite de Wyll Nordment. Ele esperaria por ela na entrada do vestíbulo após o jantar. Ela decidiu aceitar o convite.
Depois do jantar, ela inventou uma desculpa para ir sozinha até a entrada do vestíbulo. Lá estava Wyll encostado ao corrimão. Atrás dele girava a projeção da Via Láctea. Ele sorriu para ela. Ela desceu lentamente os degraus até estar diante dele.
— Estou muito triste por você — disse ela.
Ele abaixou a cabeça para, em seguida, levantá-la novamente. Ele demonstrava uma expressão confiante.
— Já é alguma coisa pensar em mim, você se divertiu?
Ela balançou a cabeça.
— Foi aborrecido como sempre. Mas, o meu futuro será semelhante a isso. Bailes e desfiles intermináveis durante o inthronium.
Novamente, ela fez uma expressão de abatimento. Wyll pegou a mão dela.
— Porém, talvez eu possa mudar isso. Venha, eu vou te mostrar como os galácticos normais celebram suas festas.
Amor e Morte
“Ninho de peepsies” estava estampado em forma de um holograma luminoso intermitente sobre a entrada principal do estabelecimento, seis conveses abaixo da sala de jantar principal. Wyll arrastou Rosan com ele. O ar abafado e enfumaçado os fez torcerem o nariz momentaneamente. Estava quente, as luzes eram insuficientes e uma música ensurdecedora saia dos alto-falantes.
A atmosfera no clube era muito diferente da sala de jantar. As criaturas ali eram livres, sem tensões e pareciam dispersos. Rosan parou na entrada e olhou para os frequentadores. Todos os tipos de criaturas de diferentes raças galácticas se moviam no espaçoso bar, sentavam-se em voltada das mesas, formavam grupos na bruma da sala ou dançavam alegremente ao redor.
Rosan percebeu o nojento do Tett Chowfor no balcão. Ele remexeu-se no banco do bar, onde Rosan viu um pouco mais de seu proeminente quadril do que ela gostaria. Chowfor lhe fez uma carranca. Os Orbanashol pouco lhe importavam. Esperançosamente ele tinha aprendido a lição.
Ela caminhou até o balcão com Wyll. No fundo, soou as batidas eletrônicas de uma canção sobre Perry Rhodan, que foi acompanhada por um refrão de uma fanfarra de trompetes.
O serviço era prestado por um peepsie. O ser verde-musgo com a cabeça cônica e orelhas de abano serviu-lhe um licor de frutas brancas arcônida. Rosan esvaziou o copo de um só gole e pediu um segundo drinque.
Wyll olhou espantado para ela.
— O quê? — gritou ela, para superar a música. — Você acha que nós arcônidas nos abalamos com qualquer coisa?
Wyll apenas balançou a cabeça, divertido. Próximo a ela cambaleou um segundo peepsie. Ela se perguntou quem lhes dera esse nome? O cabeça pontuda conversava com o seu colega melancólico atrás do balcão. Agora ela descobriu. A autodesignação do peepsie era impronunciável para a maioria dos galácticos. A música mudou para uma espécie de balada, que era acompanhada por melodias. Que não era do gosto de Rosan, mas o peepsie, que estava ao lado dela, balançava os longos braços para cima e para baixo a cada “sequência de notas”. Derramando a cerveja em cima de Rosan.
— Ohh, não. Minha linda Uuhee — guinchou o galáctico decepcionado.
— Nós não estamos nem aí com sua cerveja? Você sujou a moça — disse Wyll.
Rosan sorriu e acenou com a cabeça.
— Oh, não têm importância! Não foi intencional.
Rosan inclinou-se para trás e deixou os olhos vaguearem ao redor da sala. Na mesa ao lado dois musculosos ertrusianos, com grunhidos e gemidos altos, mediam forças numa queda de braço. Enquanto forçavam o braço um do outro para baixo, eles quebraram a mesa. Um deles caiu no chão, mas levantou-se novamente, rindo.
Ambos se cumprimentaram batendo nos seus ombros e brindaram com seus jarros de bebidas. Rosan estava espantada com tanta alegria. Algo assim não era encontrado nem permitido entre os orgulhosos arcônidas. É claro que os arcônidas tinham seus bares, clubes e discotecas, porém, nas últimas décadas o império de cristal havia propagado uma educação disciplinada em todas as classes da população.
Árcon deve representar dignidade e esplendor, era um dos princípios que os orientadores de Rosan martelaram repetidamente durante todo o seu tempo de escola.
A música foi alterada para uma encantadora canção em intercosmo de uma banda terrana.
Wyll segurou a mão de Rosan. Eles correram até a pista de dança. Rapidamente Rosan aprendeu a dança “moderna”. Ela riu e se alegrou.
O pequeno menino unitro, que lhe entregara a mensagem de Wyll, dançava desajeitado com uma jovem julziisch. Era uma bela visão. Rosan estava despreocupada e serena.
***
Hermon da Zhart sentiu um frio na espinha. Os terranos gritavam, o que estes bárbaros chamavam de música, provocava dores de cabeça, convulsões e náuseas num arcônida civilizado.
Ele torceu o nariz. Havia um cheiro repugnante ali. Em todos os lugares, homens e mulheres de todos os povos possíveis cambaleavam embriagados. Pelo menos, a escassez de luz poupou da Zhart de algumas perversões dos braas'cois, como suspeitava o ex-agente de cristal.
Zhart pensou no Salão de Cristal de Forim. Para ele era uma espécie de autodefesa deixar os sons suaves de “Caycon e Raimanja”, a composição do lendário Imperador Gonozal VII, ressoar em seus pensamentos.
Não foi difícil encontrar Rosan Orbanashol. Ela festejava com o endiabrado braas'coi Wyll Nordment — ela parecia estar embriagada. Ela ria e abraçava Wyll. Que vergonha para os nobres Zhdopanthis. Enojado Hermon da Zhart voltou para fazer o relatório à Attakus.
***
Após o fim do baile, Wyll e Rosan correram para o convés. A LONDON ainda estava em voo normal. Os dois olharam para o mar de estrelas.
— Muito bonito. Nós ainda podemos ficar sozinhos em algum lugar bonito, um planeta pacífico? Só nós dois — disse a entusiasmada meio arcônida, olhando fundo nos olhos de Wyll.
A LONDON atingiu um sistema com um mundo de oxigênio. Lentamente a espaçonave entrou em órbita ao redor do planeta azul-esverdeado. Depois de a nave mergulhar na atmosfera e abrir pequenas escotilhas no campo defensivo, o ar fresco e limpo da baixa atmosfera do planeta chegou até eles.
Rosan e Wyll foram até uma das eclusas. A LONDON descia a baixa velocidade, por isso não havia perigo para os passageiros permanecerem ali. As nuvens do planeta eram acastanhadas e levantavam-se como torres. Wyll e Rosan colocaram-se ao lado de uma das escotilhas abertas. O vento soprava suavemente. Wyll estava atrás dela e a abraçou. Ambos trocaram olhares. Seus lábios procuraram-se. Eles se tocaram relutantes, em seguida, com mais intensidade e cheios de paixão.
— Agora estamos em outro planeta. Só nós dois, sozinhos — disse ele.
— Porém, é uma estrela classificada como muito quente — corrigiu Rosan.
— Típico dos arcônidas. Sempre devem ter a última palavra...
Mais uma vez eles se beijaram longamente.
— Eu quero ficar com você, Wyll. Para sempre. Estou falando sério. Eu vou abandonar a minha família!
Ele tomou-a nos braços e beijou-a na testa. — Eu admito que não posso lhe oferecer muita coisa, porque estou desempregado desde ontem, mas...
Ela colocou o dedo sobre sua boca. Em seguida, ela o puxou para baixo e beijou Wyll embriagada de amor.
Ambos se entrelaçaram num abraço apertado e depois ficaram olhando as nuvens ascendentes deste mundo alienígena.
Em seguida, ela disse: — Eu irei até a cabine da minha família e lhes direi que eu vou ficar com você!
Wyll balançou a cabeça. — Eles não vão aceitar. Eles iriam humilhá-la novamente. Eu vou com você.
— Não, eu preciso fazer isso sozinha. Então pediremos ajuda para Perry Rhodan e Sam. Eles compreenderão a nossa situação.
Wyll olhou espantado para ela. — Você não pode simplesmente se aproximar de Perry Rhodan, ele vai rir de você.
— Provavelmente, na sua companhia se espalhou uma propaganda ainda pior do que a nossa? Rhodan é um homem de bom coração. E ele existe para todos. Ele vai nos ouvir e ajudar!
Rosan contou a Wyll sobre sua aventura em Mashratan há uma década. Não fosse por Perry Rhodan e Gucky, quem sabe o que teria acontecido com ela. Rhodan não havia se esquecido de Rosan, senão, não teria lhe dispensado sua atenção pessoal no início da viagem.
Aparentemente isso convenceu Wyll. Ele apertou-a ainda mais em seus braços.
— Muito bem. Mas depressa, por favor. Se eu não tiver noticias suas em dez minutos, eu irei atrás.
As eclusas se fecharam e a LONDON aumentou a velocidade novamente. Ela deixou o planeta para trás e, em seguida, mergulhou no hiperespaço.
Ela se despediu, beijando-o apaixonadamente. Então Rosan soltou-se suavemente dos braços de Wyll e saiu correndo.
***
Rosan Orbanashol usou o dispositivo antigravitacional para se deslocar do convés superior ao convés A. Ela gostou desta solução, apesar da ansiedade trazida pelo confronto com sua família. A vista do “convés superior” era amigável, como nos intermináveis e monótonos corredores. A assim chamada “passarela” deste convés provocava um efeito como se realmente estivesse no parapeito de uma nave ou na calçada numa grande área metropolitana. Ela olhou para a direita e teve uma visão clara dos andares adjacentes, os quais eram organizados como uma pirâmide de degraus. Neste momento eles não estavam ocupados. Por isso ela estava completamente sozinha. Todavia, deparou-se com Tett Chowfor no dispositivo antigravitacional que ia para o convés A.
— Olá, querida. Então, nos encontramos de novo — balbuciou ele, lascivo.
— Deixe-me em paz! — sibilou ela.
Ele agarrou seu braço. Ela tentou afastá-lo, sem sucesso. Então lhe bateu na face.
— Sua bisca! — gritou ele.
Ele contra-atacou. O sangue escorreu de seu nariz. Ela gritou em voz alta.
— Você me deve algo, depois do que fez comigo, querida!
Ele tentou beijá-la. Rosan lutou com todas as suas forças. A saliva fluía de sua boca, defendendo-se ela mordeu a mão dele. Ele gritou e ela pôde se libertar. Rosan começou a correr e correu para salvar sua vida.
A jovem Orbanashol gritou por socorro e Wyll a ouviu. Nordment a segurou. Ela se agarrou a ele, chorando.
— O que foi querida?
Ele tentou acalmá-la. Neste instante surgiu Chowfor visivelmente atordoado.
— Eu mostrarei para você — gritou ele. Sacando uma faca desintegradora do bolso e apontando-a para os dois.
— Corra Rosan! — gritou Wyll e se jogou sobre Chowfor. Porém, ela parou e olhou desesperada para os lutadores.
Chowfor golpeou Nordment com a faca várias vezes, mas não conseguiu acertá-lo. Ambos lutaram ao lado do corrimão do convés. O corpo maciço de Chowfor pressionou Wyll contra o corrimão. Ele tentou levantá-lo sobre a balaustrada, mas Wyll o chutou no estômago, conseguindo ganhar um pouco de espaço. Chowfor tentou acertá-lo novamente, mas desta vez foi no rosto com os punhos. Ele agarrou o pescoço de Wyll e apertou.
Em seguida, o seguidor de pai Dannos tentou enfiar a faca no peito de Wyll, mas este conseguiu reverter à situação.
Ele agarrou Chowfor e girou-o, neste instante a faca perfurou seu corpo. Seus olhos enrijeceram. Ele engasgou, então, perdeu o equilíbrio e caiu por sobre o corrimão para as profundezas. Seu corpo caiu cerca de oito metros até o convés inferior. Houve o baque surdo quando atingiu o chão.
Tett Chowfor estava morto.
***
Rosan correu até Wyll e o abraçou.
— Nada aconteceu com você? — quis saber ele.
— Eu... eu estou bem...
Ela olhou para baixo, onde jazia o corpo despedaçado de Chowfor.
— Ele está morto?
— Sim — Wyll respondeu calmamente. — Ele já não pode fazer mais nada para prejudicá-la.
Eles olharam em volta. Aparentemente, ninguém tinha notado a luta.
— Devemos informar Holling imediatamente — continuou Wyll.
Ele segurou a mão de Rosan. Ambos correram até o elevador antigravitacional, que os levou até a ponte de comando dois andares acima.
Rosan e Wyll respiravam pesadamente quando eles chegaram lá. Evan Rudocc estava de serviço na central de comando, ao lado dele estava o adjunto de localização Jon Maskott. E dois desconhecidos em uniformes hanseáticos.
Rudocc olhou para eles, ansioso.
— Wyll, o que aconteceu? — perguntou ele.
— Eu preciso falar com Holling imediatamente.
Os dois desconhecidos encararam Nordment e Rosan interrogativamente. Rosan notou que Wyll não conhecia os dois. Se Wyll não conhecia os dois terranos, definitivamente, eles não pertenciam à equipe da central de comando.
— Quem são eles? — perguntou Nordment.
Rudocc parecia envergonhado.
— Eles são especialistas hanseáticos. Um arranjo de Gaton.
— Eu sou Craig Anbol. Em quê podemos ajudá-los?
Rosan recuou instintivamente.
— Não, obrigada.
— Rudocc, Rosan tem razão. Precisamos falar imediatamente com o comandante... sob quatro... seis olhos.
Rudocc compreendeu e informou Holling, que ainda estava na sala de jantar. O velho de 175 anos se dirigiu apressadamente até a ponte. Wyll e Rosan estavam esperando por ele em seus aposentos.
Wyll passou uma impressão sombria. Holling estava visivelmente irritado com o fato de que Rosan estava com Wyll.
Holling sentou-se e também ofereceu um lugar a Wyll e Rosan, mas ambos permaneceram em pé.
— O que foi Wyll? — perguntou Holling, finalmente.
— Aconteceu algo terrível... — começou ele, e descreveu toda a história ao plofosense.
Depois disso, Holling ficou em silêncio por um bom tempo. Seu rosto estava pálido.
Wyll declarou seu pesar, mas salientou que foi em legítima defesa. Holling pediu ao médico da nave para se encontrar com ele em sua cabine. Depois de apenas dois minutos Hostav Tablot chegou à cabine do capitão. O afro-terrano de cabelos crespos percebeu imediatamente que havia acontecido alguma coisa.
Holling informou-o sobre a luta.
— Primeiro eu pego um homem de confiança e desapareço com o cadáver. Depois removeremos todos os vestígios — explicou.
Em seguida, Tablot olhou para Wyll e Rosan.
— Wyll, você não sabe as consequências que isso trará — sussurrou ele desolado.
Rosan interveio. — Por quê? Ele salvou minha vida. Foi legítima defesa. Nenhum tribunal pode condená-lo.
Holling assentiu com a cabeça. — Isso é verdade, mas não é só isso. Wyll, a LONDON está nas mãos deste pai Dannos. Ele introduziu o vírus e ocupou todas as posições-chave com o seu pessoal. Apenas a tripulação sabe sobre isso, a fim de evitar o pânico em massa.
Instintivamente, Rosan estendeu a mão para Wyll.
Holling continuou: — Tanto os dois seguidores que estão na estação de comando, bem como Tett Chowfor. Dannos nos advertiu que dez pessoas morreriam se apenas um de seus discípulos desaparecesse.
Agora Wyll teve que sentar-se. — Então eu tenho as vidas de dez passageiros inocentes em minha consciência...
Nordment foi invadido pela tristeza e culpa. Mas o que poderia ter feito? Doutor Tablot pediu que ele recuperasse a coragem. Rosan também disse que de outra forma ambos teriam morrido. Ela sentou-se ao lado dele e colocou o braço em torno dos ombros dele.
— Você não tinha escolha. Dannos é o assassino, não você.
Os olhos de Wyll ficaram aguados.
— Nós temos que fazer algo sobre isso — disse ele, exaltado.
Então ele levantou-se, como se tivesse uma ideia.
— Há alguém aqui que pode salvar a vida dos passageiros – Perry Rhodan!
Nas mãos dos Filhos da Fonte de Matéria.
Rhodan e Sam estavam na confortável cabine de Arno Gaton. O alojamento do porta-voz hanseático poderia facilmente se alojar confortavelmente uma família de quatro pessoas. O conforto não impressionou os visitantes. Ele era estéril, decorado com mobiliário moderno curvilíneo em branco e ocre. Embora o porta-voz hanseático tivesse instalado dispositivos antigos na LONDON que lhe transmitiam uma aparência rústica, era difícil ver algo assim em seus aposentos.
Gaton despertou uma impressão de nervosismo. Ele ofereceu uma poltrona ao somerense e a Rhodan. O servo trouxe-lhes algo para beber. Gaton esvaziou o copo rapidamente.
— Então? — perguntou Rhodan.
— Tivemos que mudar de rumo, porque alguém nos ordenou — disse Gaton.
Sam olhou para ele desconfiado.
— E quem seria ele?
Ambos olharam ansiosos para o porta-voz hanseático.
— Pai Dannos! Ele sequestrou a nave! — disse ele e sentou-se.
Sam parecia surpreso. Na verdade ele não esperava por isso. Ele observou a reação de Rhodan. Um pequeno sinal de espanto e pesar por um segundo. Então fez jus a sua reputação de “reator instantâneo”.
— Quantos homens ele tem? — perguntou Rhodan.
Gaton deu de ombros. — Nós não sabemos o número exato. No momento, existem cerca de quarenta pessoas que patrulham ininterruptamente a nave e estão bem armados.
Rhodan quis saber mais e Gaton informou-o minuciosamente sobre tudo. Que havia uma bomba a bordo, sobre a ameaça de assassinato dos passageiros, do plano cósmico perfeito de Dannos e de suas intenções de se tornar um cosmocrata.
— Este Dannos é um louco, porém, deve ser considerado como muito perigoso! — disse Sam.
Rhodan concordou.
— De qualquer modo, os passageiros deviam ser informados. Precisamos pedir ajuda. Eu preciso dos dados exatos da nossa posição e bases ou planetas habitados aos quais podemos pedir ajuda.
Gaton despertou a impressão de estar sobrecarregado.
— Eu não sei como conseguir tal coisa. Isso é uma coisa que você tem que perguntar ao comandante. Eu sou apenas um homem de negócios, não o líder de uma força-tarefa para combater terroristas!
— Controle-se, Gaton! Você é o porta-voz da Liga Hanseática Cósmica — admoestou-o Sam. — Agora você precisa manter a calma. As vidas de mais de dezesseis mil criaturas dependem disso!
Nesse momento, Holling e o casal de namorados Wyll e Rosan entraram na cabine. Gaton ficou intrigado.
— O que eles fazem aqui? — perguntou ele ao levantar-se para cumprimentar Rosan Orbanashol.
— Ele fez alguma coisa com você? — perguntou o porta-voz hanseático preocupado.
Rosan revirou os olhos. — Não! — gritou ela para ele. — Ele salvou minha vida, por duas vezes. Enfim, você deve deixá-lo em paz!
Nordment acalmou-a novamente.
Holling virou-se para Rhodan. — Será que Arno Gaton já os informou?
Rhodan confirmou sem dizer uma palavra. Ele viu a angústia na face dos três.
— O que aconteceu?
Holling e Wyll descreveram o incidente com Tett Chowfor. Gaton não conseguia pronunciar uma palavra. Seu rosto ficou vermelho.
— Não podemos atribuir à culpa em Nordment nem a Rosan Orbanashol. Somente Chowfor foi o culpado! — resmungou o somerense Sam, amargurado.
— Eu vou falar com Dannos — decidiu Rhodan. — Ele não pode matar dez passageiros indiscriminadamente. Sam, você me acompanha?
— Claro — respondeu o somerense.
***
O doutor Tablot e o adjunto do chefe de segurança, Uto Lichtern, levaram o cadáver de Tett Chowfor para um conversor restrito a tripulação. Perry Rhodan e Sam participaram do insólito funeral.
— Lichtern e eu apagamos todos os vestígios — disse o médico.
Rhodan agradeceu a sua reação rápida. No entanto, provavelmente ela seria inútil, porque Dannos ameaçou matar dez passageiros, se alguém desaparecesse. Se esse guru encontrasse o corpo de Chowfor ou não, isso não salvaria a vida de dez criaturas.
Rhodan acenou para Sam e os dois se dirigiram à suíte do sectário.
Ambos pararam diante da cabine de Dannos. O irmão Cech-Nor permaneceu petulantemente diante deles. Eles lhe disseram que tinham que falar urgentemente com o seu líder.
Demorou um pouco até que o tópsida retornasse.
— O Pai concedeu-lhes uma breve audiência — disse ele, e levou-os para dentro da cabine.
Dannos usava seu traje habitual. E estava em pé diante da janela.
— Portanto, Gaton e Holling não se mantiveram em silêncio! — disse ele, impassível.
Ele ofereceu a Rhodan e Sam um lugar para se sentarem. O somerense tomou a primeira e se sentou sobre os padrões arqueados da poltrona artisticamente decorada. Perry preferia ficar em pé, no entanto, seguiu o exemplo do diplomata. Dannos se virou e mostrou ao terrano e ao somerense um sorriso superior. Então ele se esparramou em outra poltrona e cruzou as pernas. Todos os três se olharam por um curto período de tempo antes de Rhodan pôr fim ao silêncio.
— É verdade! Gaton e Holling nos contaram sobre o furtivo sequestro.
— Porém, eu dei a ambos ordens explicitamente contrárias. Eles devem ser punidos por sua desobediência — disse o guru.
— Eu lhe digo. Assim, você nunca vai se tornar um cosmocrata. Eu estou familiarizado com eles. Afinal, eu ainda tenho o status de cavaleiro — continuou Rhodan.
— O que você sabe? Nada! — gritou Dannos para Rhodan. — Você não entende isso, porque é um estúpido! Nós, os Filhos da Fonte de Matéria, somos uma unidade cósmica. Vamos viajar até a fonte de matéria e, assim, iniciar o nosso caminho para uma forma de existência superior. E nada nem ninguém podem nos deter!
Neste momento, o somerense interferiu. Primeiro ele tentou compreender Dannos e começou a discussão com a filosofia dos Filhos da Fonte de Matéria.
Dannos ressaltou que eles eram cidadãos cósmicos do Universo e que haviam recebido seu caminho de iluminação cósmica dos cosmocratas.
Sim, Dannos alegou que os cosmocratas em pessoa tinham falado com ele e lhe mostraram o caminho. Sam não compreendia por que isso tinha que acontecer à custa de pessoas inocentes. Será que isso era de sua doutrina do paraíso e da fé cósmica universal?
Dannos defendeu-se. Outra vez ele tinha que sacrificar uma vítima. Isto sempre foi parte da história de qualquer religião. Ele se lembrou de Sodoma e Gomorra, ressaltou que Deus salvou apenas Noé e alguns poucos escolhidos antes do Dilúvio e das legiões egípcias que tinham vindo para a morte no Mar Vermelho para salvar o círculo de elite de seus filhos. E assim ele os chamou de Filhos da Fonte de Matéria. Eles seriam elitistas, superiores ao comum, seres miseráveis e seres superiores iluminados por Deus e pelos cosmocratas.
Eles seriam a nova elite da Humanidade, escolhidos por um salto evolutivo sem precedentes, enquanto o resto da Humanidade continuaria a definhar em sua existência mesquinha nas terras baixas.
O somerense levou Dannos a falar sobre o passado. Rhodan soube que anteriormente Dannos tinha feito um monte de coisas boas. Mas isso foi antes do poder do amor tornar-se amor pelo poder. Depois, Dannos ficou conhecido por seu uso excessivo de drogas e crenças pseudorreligiosas. Juntamente com outro guru da seita chamado Grimm T. Caphorn, ele organizava e pregava orgias sexuais para o “equilíbrio da psique cósmica” e se envolveu em vários negócios escusos e especulação com dinheiro. Mais recentemente ele até fora acusado de evasão fiscal e suborno de membros da administração da LTL, mas escapara com apenas uma pesada multa.
Todavia Dannos foi mais longe. Mais uma vez, ele se comparou a Moisés e seus filhos com o povo de Israel. Ainda assim, também não conseguiram compreender aquilo, pois os egípcios os escravizaram e os perseguiram. Mas, assim como Moisés ele estava acompanhado por Deus. E, portanto, ele venceria.
Rhodan percebeu que esta disputa teológica não levaria a nada. Sam deixou isso muito claro. Ele resignou-se e decidiu não estender-se na discussão. Qualquer apelo à razão e a moral de Dannos era em vão.
— Por que razão você sequestrou a LONDON? Há muitas pessoas inocentes a bordo! — finalmente Rhodan chegou ao ponto.
Com ela, Dannos e seus filhos seriam capazes de viajar até o fim do Universo. Mas por que teve que se apoderar da LONDON?
— Os caminhos de uma entidade são inescrutáveis — profetizou Dannos com ar de superioridade.
— Ou a maneira de um louco! — rebateu o somerense.
Dannos ficou enfurecido.
— Você, seu sabiá minúsculo! Como você se atreve, eu fui escolhido por Deus para encontrar o caminho!
O que viu foi a loucura. Então Rhodan compreendeu que a vida dos passageiros estava em grande perigo.
— Os cosmocratas também deixavam a generosidade prevalecer — disse Rhodan.
“Eu só não sei quando”, acrescentou ele em pensamento.
— Eles sempre respeitaram a vida. O bem-estar de cada indivíduo era importante para eles — mentiu ele.
— O que você quer, além disso, irmão? — perguntou o sectário.
Antes que Rhodan pudesse responder, Craig Anbol invadiu a sala.
— Pai, Chowfor está morto! — disse ele apressadamente.
Dannos fez uma expressão confusa.
— Como? — gaguejou ele.
— Observamos quando dois tripulantes levaram o seu cadáver até o conversor. Outros dois também estavam lá — respondeu Anbol.
Ele olhou para Rhodan e Sam. Rhodan amaldiçoou o seu descuido. Ele deveria ter pensado melhor!
Dannos olhou para Rhodan e Sam.
— Então é por isso! É por isso que você veio aqui! Para implorar pela vida de dez passageiros.
Rhodan levantou-se e ergueu as mãos, suplicante.
— Ouça-me, Dannos. Você não conseguirá nada com a morte de algumas pessoas, Chowfor também violou as suas ordens. Ele provocou a luta. Você espera que pode simplesmente matar um homem, apenas porque um bêbado lunático quis assim?
— Este bêbado lunático era um dos meus filhos. Ele era uma parte da minha unidade cósmica! — gritou Dannos. — E você vai pagar por isso. Eu dei minhas ordens de forma explícita. Por que ninguém me escuta? Você acha que eu estou apenas falando para que você ouvir e os meus dentes se moverem? A ordem foi clara!
Ele teve outro ataque de fraqueza. Seus irmãos o apoiaram.
Sam trocou um olhar significativo com Rhodan.
— Tome a minha vida em troca dos dez. Eu sou aquele que lutou com Chowfor quando ele tocou de forma imoral numa mulher. Como um homem de honra, eu simplesmente intercedi por ela. Assumo total responsabilidade por isso — corajosamente o somerense tentou assumir a responsabilidade.
— Oh, não! Eu não sou tão estúpido. Ele não tem altura e nem força para derrotar Chowfor.
Ele olhou para Rhodan.
— E você nem tem o direito de ser um voluntário. O destino dos dez passageiros está selado. Eles serão executados amanhã. Este é o julgamento de um deus, porque eu sou o deus da LONDON! Amanhã de manhã dez galácticos morrerão!
***
Na manhã do dia 16 de outubro do ano 1285 NCG, Craig Anbol e outro seguidor de Dannos entraram uma sala de estar. Eles estavam vestidos como tripulantes. No átrio do hotel havia poucos galácticos que tomavam o café da manhã.
Anbol e seu companheiro selecionaram ao acaso dez pessoas sob o pretexto de que eles ganharam um passeio nas instalações da espaçonave. Havia três casais mais velhos e incluindo um jovem casal aconense com dois filhos. Eles foram levados para a seção inferior, diretamente para a eclusa.
Lá eles esperavam que Anbol começasse a lhes explicar o propósito das instalações. Mas, em vez da explicação prometida os dois seguidores do pai Dannos abriram fogo com os dois radiadores térmicos que portavam. Ao ver os dois radiadores os passageiros soltaram um grito curto, para depois caírem em silêncio para sempre.
Anbol e seu irmão de fé passaram pelos corpos e tiraram fotos. A mãe aconense tinha se lançado como um escudo por sobre um de seus filhos.
Ele ainda estava vivo!
Anbol ordenou ao seu companheiro para atirar na menina ferida, porém ele não conseguiu fazê-lo. Ele disse que Anbol fizesse isso sozinho.
A menina choramingava de dor e medo.
Anbol apontou a arma para a menina. Lágrimas brotaram de seus olhos. Ela tinha apenas sete anos de idade! Cheia de medo, ela olhou o rosto de seu assassino.
Porém ele hesitou.
Ele olhou profundamente em seus olhos manchados de lágrimas e encontrou seu reflexo neles e, em seguida, por um breve momento, o vermelho escaldante do campo de descarga do radiador brilhou. O olhar da menina se apagou. O mau cheiro de carne queimada subiu em seu nariz e, de repente, o fez se sentir mal. Porém, o controle do climatizador eliminou o cheiro rapidamente. Anbol fechou os olhos por um breve momento, então ele foi até o seu companheiro e tomou a câmera para tirar fotos da menina morta. Em seguida, eles deixaram o local de horror e jogaram os corpos através da eclusa.
As fotos foram entregues a Rhodan, Sam, Gaton e Holling. Todos os quatro não disseram uma só palavra.
Finalmente, Sam disse — custe o que custar, nós puniremos estes assassinos!
Rhodan achou melhor que Rosan voltasse para sua família, para que não provocasse nenhuma desconfiança.
Wyll não ficou muito entusiasmado com essa ideia, mas mesmo ele não tinha escolha a não ser seguir o conselho de Rhodan.
***
No dia seguinte Rosan teve uma terrível ressaca, o choque ainda estava atravessado no fundo de sua consciência. Ela ficou na cama até às onze horas e tomou o café da manhã em sua cabine.
Attakus esperava por ela. Sua expressão facial não revelava nada de bom.
— Bom dia — murmurou Rosan calmamente.
— Eu esperava que você viesse até mim na noite passada — começou Attakus em tom de censura.
— Eu estava muito cansada — ela pediu desculpas e serviu-se de um café. Seus pensamentos giravam em torno do sequestro da LONDON e do destino dos dez passageiros. Rhodan e Sam conseguiriam apaziguar o pai Dannos?
— Por causa de sua escapada de ontem com Nordment, eu suponho — replicou o noivo.
Rosan sacudiu a cabeça.
— Será que você enviou seus vassalos atrás de mim? Que diabos, eu só me diverti com Wyll. Somos bons amigos. Ele é um homem de verdade, de coração e de mente. Não é tão arrogante e repugnante como você!
Ela se perguntou se deveria contar a Attakus sobre o sequestro. Entretanto, de repente seu primo explodiu. Rosan não sabia o que dera nele. Ele derrubou a mesa do café da manhã. Ruidosamente os pratos e copos caíram no chão.
— Como você se atreve, você e um bárbaro miserável! — gritou ele para ela.
Apavorada, ela deixou a cadeira.
Todo o corpo de Rosan tremia.
— Tem mais alguma dúvida? — perguntou ele friamente.
Ele se recompôs outra vez.
— Não... não — gaguejou ela, desesperadamente.
De repente Attakus sorriu ternamente.
— Ótimo! Desculpe-me — disse ele simplesmente e deixou a sala.
Rodrom
A espaçonave com doze quilômetros e meio de comprimento, com o formato de estaca e com a superfície semelhante a um asteroide, deixou o continuum.
O casco da espaçonave era coberto por crateras e penhascos íngremes. A partir dos canyons, as armas se projetavam para o ar com as suas mortais cabeças de projeção. Algumas fontes luminosas individuais, distribuídas em diferentes posições da gigantesca nave ficavam visíveis.
A espaçonave peculiar era empurrada em direção a uma imponente galáxia. Esta ilha estelar tinha em seu centro um conjunto de imensas nebulosas escuras. Em contraste com muitas galáxias, que tinham uma alta densidade de estrelas no centro, nesta havia uma grande quantidade de matéria escura. Por conseguinte, o centro desta galáxia era quase negro.
A bordo da WORDON, os zievohnes executavam suas tarefas como parte da tripulação de serviço. Estas criaturas, envoltas em seus mantos cinzentos, trabalhavam em silêncio.
Os zievohnes eram excelentes como tripulantes permanentes por causa de seu condicionamento nos ensinamentos de MODROR. No entanto, os melhores cientistas eram os robustos rytars de três pernas. Juntamente com o povo de lagartos larsaar e dos skurits, os androides guerreiros, eles formavam o núcleo de ocupação da WORDON.
Os rytars desempenhavam as suas funções por toda a nave. No entanto, os seres de um olho só estavam envolvidos principalmente na pesquisa e desenvolvimento de armas e em atividades médicas.
Dos larsaares, seres semelhantes a lagartos, havia poucos a bordo da WORDON. Eles eram soldados de elite. O exército principal de Rodrom era constituído pelos skurits, os soldados esqueletos, cuja aparência marcial dificilmente podia ser superada.
Alguns dos skurits ficavam de guarda na entrada para a ponte de comando.
O próprio Rodrom se empoleirava em seu posto de comando quando assumia a sua odiosa forma material.
Ele observava o trabalho de seus subordinados. Uma das figuras se aproximou dele. Era Zukthh, o comandante da tripulação. Ele curvou-se diante da encarnação vermelha incandescente.
— Senhor, nós alcançamos Saggittor! — sussurrou ele, submisso.
Rodrom olhou para as telas de controle e reconheceu a impressionante galáxia.
— Ative o nosso campo de camuflagem para que os povos desta galáxia não nos perceberem. Em seguida, enviem a mensagem de rádio para os kjolles. Para informá-lo sobre a minha chegada!
— Como desejar! — disse Zukthh. Ele saiu imediatamente para executar as ordens de Rodrom.
Rodrom levantou-se e decidiu andar um pouco pela nave.
Ele olhou para os guardas e para os seres de capuz que monotonamente faziam o seu trabalho. Depois de um tempo ele se deparou com os alojamentos da tripulação. Os combatentes de elite eram alojados numa determinada seção. Mas ali não havia apenas os larsaars.
Estes mercenários eram seres de diferentes partes do Universo. No momento, esta força era composta por trinta criaturas de todas as origens e de povos diferentes. Ao longo dos milênios, o filho do caos, Cau Thon escolhia repetidamente exemplares de um povo particularmente combativo e os condicionava para servirem as finalidades de MODROR.
Eles eram obrigados a submissão inquestionável a MODROR. No entanto, também se beneficiavam de uma vida mais longa.
Se Rodrom ficasse cansado deles, ele os colocava numa das dobras do espaço-tempo dos casaros. Lá eles eram preservados perfeitamente devido a paralisação temporal em comparação com o universo normal.
Os casaros constituíam um povo peculiar encontrado por Rodrom. Belicosos e combativos por um lado, mas, ao mesmo tempo, eram pesquisadores ambiciosos e curiosos. Para onde quer que Rodrom tinha viajado em nome de seu mestre, os casaros tinham criado e construído bases nas dobras do espaço-tempo. Lá, eles permaneciam despercebidos e estudavam os povos locais.
Assim era chamado o Grupo Local, que a algumas badaladas cósmicas estava incluída na área de interesse de MODROR. No espaço vazio entre a Via Láctea e Andrômeda, os casaros mantiveram-se por quase 3.500 anos comodamente inativos, muito antes dos recalcitrantes terranos pisassem nos degraus do palco galáctico. Eles só deixavam a dobra do espaço-tempo se estivessem em busca de novos objetos de estudo. Decididamente estes seres reptilianos adoravam pesquisar informações a respeito dos diversos povos ao longo de gerações. E quando eles concluíam os seus estudos, eles simplesmente consumiam as criaturas supérfluas. Rodrom gostava deste cenário, embora fosse sobre as coisas da vida.
Os mercenários de Rodrom só eram utilizados em tarefas particularmente perigosas. Até agora eles nunca haviam decepcionado o seu mestre. Rodrom sempre tivera o cuidado de estabelecer um equilíbrio entre a inteligência e a força muscular bruta. Assim, suas tropas eram compostas tanto por criaturas táticas quanto por criaturas brutais e estúpidas.
Ele ouviu um pisar alto. Era um de seus combatentes que retornava da manutenção de sua espaçonave. O gigante de 3,50 metros de altura parou. Era incontestável o brilho de espanto em seus três olhos vermelhos brilhantes. Ele curvou-se diante da visão de seu mestre. Ajoelhou-se e inclinou-se no chão sobre o par de braços de baixo.
— Você pode se levantar novamente — disse Rodrom, condescendente.
O colosso cumpriu a ordem. A protuberância em torno de seu pescoço pulsava ligeiramente. Movimentando-se de um lado para o outro.
Um dos seres de capuz aproximou-se timidamente.
— Senhor, atravessamos o campo de energia e alcançamos o sistema dos kjolles.
Ele voltou ao centro de comando.
— Iniciem a aterrissagem!
***
O sistema do kjolles ficava à direita do centro da galáxia Saggittor. Eles se escondiam dos habitantes desta galáxia entre as nebulosas escuras e as vastas áreas de matéria escura. Ali a navegação normal era praticamente impossível, porque os enormes acúmulos de matéria conduziam a incalculáveis curvaturas espaciais, até mesmo no espaço normal. Além disso, há milênios a barreira de energia em torno dos kjolles fornecia uma proteção extra.
O sistema consistia de três planetas e um grande sol azul. Todos os três planetas eram habitados por kjolles. Todos os mundos foram transformados em enormes bases militares e instalações de produção.
Aproximadamente cem milhões desses seres estavam estacionados ali. Os kjolles tinham apenas 1,20 metro de altura. Eles tinham grandes cabeças em forma de melão, dois grandes olhos, de resto se assemelhavam aos humanoides.
***
Masor era o comandante deste povo vassalo. Ele estava cansado do trabalho e da monótona rotina do sistema. A visita de Rodrom seria uma agradável mudança para ele. Ele recebeu uma mensagem que vinha de seu estado-maior. Seus olhos arregalados ficaram ainda maiores, enquanto ele lia a mensagem. Ele falou vigorosamente com um de seus subordinados.
Porém, neste momento, a WORDON já pousava no gigantesco espaçoporto do planeta principal Kjoll I. Um transporte espacial transportou Rodrom para o edifício principal dos kjolles. Vários milhares dessas pequenas criaturas foram mobilizados para cumprimentá-lo.
— Seja bem-vindo, senhor — iniciou Masor, quando estava diante de Rodrom. — É uma honra para nós. O que o traz até nós, grande Rodrom?
Rodrom olhou para a pequena criatura, então, lentamente, ele passou em revista pelas fileiras de kjolles. Masor o seguiu.
— Nosso mestre me instruiu a buscar informações sobre o que está acontecendo em Saggittor. Ele está preocupado, porque no futuro os saggittonenses serão nossos inimigos.
Masor não compreendeu como o mestre sabia que os nativos de Saggittor um dia se tornariam seus inimigos. Por isso que ele não apenas um Comandante e Senhor, mas sim Senhor e Mestre.
— Nós faremos o nosso melhor para ajudá-lo — prometeu o kjolle.
— É isso o que eu espero. Qual é a situação na galáxia? — perguntou a encarnação.
— Oh, muito boa, senhor! Até agora os saggittonenses e holpigonenses não superaram a nossa barreira de energia. Eles ainda não sabem que estamos aqui.
— Seria muito lamentável se algum dia eles nos descobrissem — respondeu Rodrom, friamente. — No entanto, será que eles estão rastreando o portão estelar?
— Isso é correto. Grande Rodrom, eu tenho um pedido. Eu acabo de ser informado que os niders, um povo técnico do nosso sistema vizinho, fizeram um péssimo trabalho. Eles construíram armas defeituosas. E ao testá-las, estas explodiram e mataram alguns de seus servos.
Rodrom parou. — Então puna os projetistas, deixando de forma inequivocamente clara aos niders que tais erros podem significar o seu fim.
— Descobrimos que as armas foram adulteradas deliberadamente. Aparentemente, os niders não querem mais nos servir.
— Eu entendo. Envie uma frota de dez mil naves e incinere o mundo dos niders. Traga-me os seus líderes. Eu os receberei pessoalmente.
— Sim, senhor!
Rodrom flutuou através de uma porta que dava para uma sala separada. Esta sala era destinada exclusivamente para Rodrom. Era sua área de descanso e sala de trabalho. Na gigantesca imagem holográfica, ele assistiu uma grande frota de espaçonaves dos kjolles que deixou o sistema, para ir até o sistema vizinho situado a uma distância de seis anos-luz. As espaçonaves dos kjolles tinham a forma de discos e apenas cem metros de diâmetro. Apesar disso, tanto quantitativa como qualitativamente eram superiores às dos niders.
Ele começou a trabalhar. A hipermortrônica recolheu dados sobre todas as partes do Universo nos últimos milênios.
Rodrom se informou especialmente sobre a história dos saggittonenses. Esse povo recalcitrante tinha repelido os kjolles há muitos milênios.
Eles viviam pacificamente juntos com outros povos nesta galáxia. Além dos saggittonenses, os holpigonenses eram um dos povos mais importantes em Saggittor. Esses seres descendentes de moluscos eram cientistas e teólogos dessa ilha estelar, e principalmente disseminavam a doutrina da superinteligência local SAGGITTORA. Outros povos insignificantes eram os varnidernenses, multivonenses e troetternenses.
Os saggittonenses eram observados apenas militarmente. Rodrom não entendia como esta galáxia poderia se tornar um perigo para MODROR. Quais seriam os planos de DORGON, o inimigo de seu Senhor, com este projeto?
Sua atenção recaia sobre a família real dos saggittonenses. Era uma espécie de pseudomonarquia. Embora o chanceler saggittonense também detivesse o título de rei, ele, ainda, estava vinculado às decisões dos representantes do povo.
Doroc não havia sido um grande governante desse povo. Ele foi, assim como a sua família inteira, meramente mediano — todos foram fracos, simplesmente medíocres! Apenas um de seus filhos talvez não fosse.
Rodrom ampliou o holograma do conhecido Príncipe de Saggittor — Aurec!
Este jovem saggittonense tinha experimentado algumas aventuras em sua juventude e era considerado uma mistura contraditória de cavalheiro, mulherengo e brigão. Aurec representava um sonhador que corria atrás de ideias ousadas. Essa era uma qualidade perigosa que Rodrom conhecia de longa experiência. Quase sempre os seres vivos com ideias e sonhos tentavam torná-los realidade, assim que tivessem uma chance. Muitas vezes eles tinham muito mais entusiasmo e energia do que os realistas e administradores.
O fato preocupante é que o saggittonense tinha descoberto o portão estelar e já o tinham utilizado. Uma expedição de pesquisa foi lançada, porém em outra área de operações de Rodrom. Quem teria dado esta informação ao saggittonense?
E adivinha quem! Certamente só pode ser DORGON! Aparentemente, a entidade estava se preparando para o conflito que se aproximava.
***
Rodrom alternava entre sua existência física e mental, para lá e para cá. Não havia nada que ele odiasse mais do que passar um longo tempo em sua forma física. Para ele a existência material era uma carga repugnante. No entanto, a fim de fazer contato com seus subordinados, ele escolheu sua aparência vermelho brilhante.
Rodrom moveu as formas esféricas para as áreas mais importantes das imagens digitais a sua frente. Ele queria permanecer constantemente informado.
Tudo tranquilo no cruzamento das galáxias, foi dito pelo comandante dali. Os alyskers — se eles ainda existiam — estavam escondidos nos confins da galáxia. Eorthor, que foi tão grande um dia, tinha agora se tornado isso. Rodrom ainda esperava que ele estivesse vivo, para que um dia pudesse encontrar sua pista.
Fizemos estudos interessantes sobre os terranos nas dobras do espaço-tempo. Você gostará deles, relatara um casaro.
Os terranos! Rodrom odiava este povo. Ele não entendia por que MODROR colocava tanto valor nestes seres. Nas últimas décadas Rodrom realizara campanhas de recrutamento de Cau Thon que não eram necessárias. Isso só ocorrera devido à vontade de MODROR, a qual era obrigado a aceitar sem objeções.
Se este tal Perry Rhodan era realmente tão perigoso, o que Rodrom duvidava. Rodrom não entendia por que esse novo filho do Caos, denominado Cauthon Despair, tinha que se revelar justo agora. Talvez fosse apenas um truque do Mestre.
O ofidiano enviou alguns dados sobre os objetos de estudo. A tripulação da VIVIER BONTAINER parecia ter se acostumado à sua vida no paraíso. O velho espanhol de 180 anos passava o tempo com um castelo de cartas, enquanto três terranos lamentavam a época em que Rhodan era o líder.
O que realmente esses registros deveriam conter? As analistas e cosmopsicólogos que se preocupem com isso. Isso não interessava a ele.
Rodrom estabeleceu uma ligação com a Lua Negra. Como sempre, a equipe de plantão era irritada e extremamente rude. Os ylors não revelavam nenhum respeito. Embora parecessem muito seguros e conscientes de seu papel. Mas o Vermelho ainda não estava sedento por um exemplo.
O velho, e o único que era importante, continuava apodrecendo em seu bloco de metal TEP. Ele não queria saber de mais nada.
Mais recentemente, ele recebeu informações de Cau Thon, que estava no Império Estelar Dorgon. Lá, também, tudo corria conforme o planejado.
Rodrom estava satisfeito.
A encarnação levou alguns dias para processar a grande quantidade de informações, o que para os mortais normais teriam levado anos. Entretanto, neste meio tempo, os couraçados dos kjolles já haviam retornado.
Eles não sofreram perdas significativas. Masor relatou a Rodrom que havia sido uma grande vitória sobre os niders. Ele trouxera o líder do povo rebelde.
Os niders eram uma raça semelhante a peixes. O nider se chamava Umahn.
— De joelhos! — exigiu o kjolle e atirou o nider ferido no chão.
Rodrom aproximou-se dele lentamente.
— Valeu a pena? — perguntou ele lentamente. — Seu povo caiu, sua esposa e sua ninhada tiveram uma morte cruel.
Umahn levantou-se com dificuldade. Ele olhou para Rodrom através de sua viseira.
— Sim, valeu a pena. Por um breve momento nós éramos livres. Um povo livre e orgulhoso, não mais um desses seres diabólicos que você pode usar! O fardo de trabalhar para um assassino foi retirado de nós — disse ele com suas últimas forças.
— Então eu vou libertá-lo de sua última carga!
Rodrom era capaz de influenciar os seres com seus dons de sugestão e aplicar a telecinesia. Ele comprimiu facilmente o cérebro do nider usando seus poderes mentais em conjunto.
Umahn começou a gritar. Ele colocou a mão na cabeça. Rodrom observou a sua agonia com fria indiferença. Esta criatura estava tão abaixo dele que ele nem sequer sentiu satisfação. Seu fluido vital escorreu de sua boca provocando um mal cheiro horrível. “Bem feito!” Lentamente ele aumentou a pressão de sua mão imaginária. Um terrível murmúrio pode ser ouvido. “Como eram fracos esses seres corpóreos, tão fracos e totalmente desnecessários.” De repente, ele cansou-se deste jogo. Simplesmente era enfadonho. A mão aumentou a pressão. Agora o fluido vital se juntou também ao das brânquias e do nariz. O murmúrio cessou e o corpo escorregadio se dobrou contraindo-se totalmente. E então todos os movimentos deixaram o corpo morto.
Masor estava satisfeito com essa maneira de agir. Ele era propenso ao sadismo absoluto e regozijava-se com o sofrimento que ele podia infligir aos outros. O kjolle era um servo extraordinário — totalmente consciente e sem escrúpulos.
— Agora me deixe em paz. Eu preciso voltar ao meu trabalho — ordenou Rodrom e voltou para sua sala.
O kjolle levou os restos mortais do nider.
O caso da Liga Hanseática
22 de outubro do ano 1285 NCG
Coco Durandur escorregou seu enorme traseiro sobre a poltrona para encontrar a posição de assento mais confortável. Sentar-se sempre foi muito importante para ele. Acima de tudo, sua postura sempre devia estar confortável. Ele achava que um grande esforço era extremamente prejudicial e irritante.
Enquanto ele se debruçava sobre a agenda do porta-voz hanseático Donald Winnerborough, enfiava uma nova barra de chocolate em sua boca. Depois de um minuto, quis repetir esse ritual diário, no entanto, constatou decepcionado que a caixa de barras estava vazia.
Ele coçou seus cabelos ralos e deu um tapinha no contato de voz do intercomunicador. E pediu a sua assistente para fazer uma compra urgente para ele. Ele ignorou as palavras de aviso dela de que não deveria comer muito, caso contrário iria estourar outra vez, agradeceu à sua maneira e desligou a ligação.
Durandur esperava que sua assistente se apressasse. De fato, ele estava com muita fome. Ainda faltavam duas horas até a hora do almoço. Como ele sobreviveria até lá?
Horrorizado, ele percebeu que sua xícara de café também estava vazia! Como podia ser isso? Ele teria cometido um erro? Relutantemente, ele olhou para a máquina de café do outro lado da sala. Ele ponderou cuidadosamente o que deveria fazer agora. Ele tinha que tomar a decisão com muito cuidado. Justo agora que ele havia atingido a posição de assento mais confortável. Todos os seus esforços teriam sido em vão se agora ele tivesse que se levantar.
Por outro lado, ele estava com muita sede e ainda estava cansado. Talvez ele simplesmente devesse tirar uma soneca? Mas e se a sua assistente lhe trouxesse a sua barra de chocolate. Que impressão ele causaria? Afinal, ele era o Assistente Executivo e, portanto, um dos homens mais importantes da Liga Hanseática Cósmica. Não seria conveniente simplesmente dormir durante o trabalho.
Ele se levantou contra a sua vontade e encheu a xicara de café. Suspirando, ele sentou-se novamente em sua poltrona e leu a agenda da próxima reunião do conselho. Irritado, ele balançou a cabeça e rabiscou uma linha em vermelho. Ele escreveu no pedaço de papel impresso as palavras “OS LANCHES ESTÃO EM FALTA” e colocou-o na cesta de processamento de sua assistente.
Poucos minutos depois, ela estava de volta e trouxe a barra de chocolate para Durandur.
— Obrigado senhorita Capllar.
A mulher de meia-idade apenas balançou a cabeça e voltou para o seu escritório. Apressadamente Durandur enfiou duas barras de chocolate na boca, quando de repente o intercomunicador soou.
— O que é senhorita Capllar?
— Senhor Durandur! Há um cavalheiro na linha e deseja falar com o senhor.
— Qual é o nome do homem?
— Ele não disse.
Durandur fez uma careta. Ele não gostava deste tipo coisa. Provavelmente, era algum intrometido da imprensa. Ou um estagiário que queria se candidatar a algum cargo.
— Então se livre dele — decidiu o homem gordo.
— Mas, Senhor Durandur...
— O quê mais?
— O homem diz que se trata das vidas de dezesseis mil homens. E, que eles estão a bordo da LONDON. Se você não aceitar a chamada, todos vão morrer!
Durandur empalideceu no mesmo instante. Isso só podia ser uma brincadeira. Mas e se não fosse? E se ele rejeitasse a ligação e, assim se tornasse cúmplice na morte de muitos seres vivos? O suor escorria da testa Durandur. Ele nunca tinha estado nessa situação. Isso era completamente estranho para ele.
— Tudo bem, pode passá-lo.
Não havia transmissão de imagem. A voz do estranho que se identificou como tio Dimytran soou agradável, porém presunçosa e arrogante. Ele foi direto ao ponto e explicou ao Assistente Executivo que a LONDON foi dominada por seus irmãos.
— Senhor Durandur, comunique aos seus superiores, nós acreditamos que cada um dos reféns vale um milhão de galax. Assim, exigimos um resgate de 150 bilhões de galax.
O montante total deve ser entregue na forma de barras de ouro e blocos de cristal hovalgônio num cruzador de 100 metros, no espaçoporto comercial ao norte de Terrânia. Este cruzador estará na Terra dentro de poucos dias.
— Uma vez que estivermos fora da Via Láctea e sentirmos que ninguém nos persegue, nós lhe enviaremos um space-jet. Nele, armazenaremos as coordenadas dos reféns.
Durandur pensou por algum tempo. De repente, por algum motivo ele tinha uma dor de cabeça e não sentia mais fome. O que ele deveria fazer agora? Ele não possuía autoridade para essa decisão.
E foi isso que ele esclareceu ao tio Dimytran. No entanto, esse deu pouca atenção a isso. E pediu que Durandur entrasse em contato com as pessoas responsáveis. Coco Durandur solicitou mais algum tempo. Porém, o tio Dimytran não lhe concedeu.
— Em apenas três dias, o cruzador vai pousar na Terra. Para entregar a documentação como prova do sequestro. Depois de ter esta evidência em mãos, ainda terão vinte e quatro horas para levantar o resgate. Então se apresse gordo e entre em harmonia cósmica...
O misterioso tio Dimytran encerrou a ligação. Durandur suspirou alto e novamente comeu uma barra de chocolate. Em seguida, ele informou o diretor-adjunto hanseático Donald Winnerborough.
***
Winnerborough ouviu com calma tudo o que Coco Durandur lhe informou. No entanto, ele ponderou rapidamente.
— O que acontece se não pagarmos o resgate? — quis saber o britânico de seu assistente.
Durandur deu de ombros e fez uma expressão de incerteza.
— Eu acho que me esqueci de perguntar.
Winnerborough escondeu o rosto entre as mãos e riu amargurado. No momento, eles não tinham escolha a não ser esperar a chegada deste sinistro cruzador.
O plano perfeito
24 de outubro do ano 1285 NCG
Tudo corria de acordo com plano cósmico do pai Dannos supostamente perfeito. Pelo menos oficialmente. Extraoficialmente, houve vários problemas. Herban Livilan Arkyl tinha calculado mal. O vírus era mais eficaz e muito mais eficiente do que o esperado e tinha desenvolvido mentalidade própria. Ainda havia resquícios que não puderam ser removidos da sintrônica, mas ele não informou isso a ninguém.
Arkyl não pactuava totalmente com os Filhos da Fonte de Matéria de Dannos. Para ele, o dinheiro contava, mas, acima de tudo, estava o prestígio. Ele queria deixar a nave a bordo de um dos dois space-jet da LONDON, juntamente com os outros mercenários contratados, assim que Dannos alcançasse o seu objetivo.
A viúva Chowfor também tornou a vida de Dannos difícil. Ela ficava bêbada todos os dias e corria o risco de tornar público o sequestro. O guru teve grande dificuldade para mantê-la sob controle.
Rosan não via Wyll há dois dias. Ela permaneceu dois dias somente em sua cabine. O médico da nave diagnosticou que ela estava doente e por isso os Orbanashol não suspeitaram.
Por sua vez, Rhodan juntamente com Sam estavam trabalhando num plano para enviar uma mensagem de emergência pelo hipercomunicador.
***
Hulga Imoll e Brunde Galfesch estavam entediadas em suas cadeiras no convés tomando sol. As duas mulheres estavam lendo um livro e falavam mal dos passageiros.
Não muito longe delas, Arkyl também se havia instalado. De maneira nenhuma o filho da fonte de matéria queria estragar seu clima de férias com o sequestro.
— Stellara! — gritou Hulga Imoll.
Stellara Chowfor cambaleou até ambas e sentou-se na terceira espreguiçadeira. Cuidadosamente ela colocou seu copo de Vurguzz sobre o encosto de braços. Ela não queria perder nenhuma gota.
— Não é um cruzeiro maravilhoso? — exclamou Imoll.
Neste momento, Stellara Chowfor começou a chorar. Imoll havia esquecido a morte do marido dela. Talvez fosse pelo fato de que ninguém sentia muito a falta dele. Ela deu um tapinha no ombro de Stellara e a consolou. Brunde Galfesch disse, Stellara esqueça aquele nojento e encontre outro homem na Terra. Esta ideia não era tão ruim, achou Stellara Chowfor. Afinal, Tett a enganou e humilhou por anos.
Ela se levantou novamente e cambaleou para cá e para lá.
— É isso! Eu... eu vou encontrar outro agora mesmo! Sim — murmurou ela e tentou andar alguns metros. Infelizmente, em seguida, ela encontrou Rosan Orbanashol que queria andar um pouco no convés.
Hulga Imoll e Brunde Galfesch perceberam horrorizadas quando a meio arcônida se aproximava delas.
— Não foi ela que causou a morte de Tett... sussurrou Brunde.
Hulga acenou com a cabeça apressadamente. Wyll Nordment e Rosan Orbanashol confessaram ao pai Dannos que tinham lutado com Tett Chowfor, na esperança de que ele concederia clemência para dez passageiros. Naturalmente, ele não fez isso. Mas ele também não queria punir Rosan nem Wyll, ainda. Por enquanto, as dez vítimas tinham sido suficientes.
Atordoada, Stellara Chowfor olhou fixamente nos olhos vermelhos-rubi da meia-terrana.
— Assassina! — gritou ela em voz alta.
Rosan não disse nada. Não porque ela tinha a consciência pesada, mas porque não queria chamar a atenção. Ela temia pela execução de mais passageiros inocentes, caso eles descobrissem sobre o sequestro. Rosan não tinha escolha, a não ser participar desta charada.
— Por que eu derramei seu Vurguzz? Deveria me agradecer por isso — respondeu Rosan a perplexa Stellara Chowfor. Herban Lilivan Arkyl percebeu a cena.
O hasprone agarrou Stellara rudemente pelo braço.
— O que é isso? Quer pôr em risco o plano perfeito? — sussurrou ele.
Só agora Stellara percebeu que provavelmente ela tinha exagerado um pouco. Alguns passageiros olharam espantando para ela. Herban Livilan virou-se rapidamente, pegou o copo e segurou-o no ar. Ele pediu desculpas pela embriaguez dela. As pessoas acreditaram nele e rapidamente esqueceram o incidente.
Hiretta segurou Stellara pela mão e a levou para sua cabine. Rosan observou o sintrônico hasprone e as duas mulheres.
— Uma bela seita. Um grande plano, quase perfeito — zombou ela baixinho. — Se até mesmo uma bêbada pode jogar fora suas crenças, então ore a seu guru para que não surjam mais complicações.
Ela sorriu com ar de superioridade. Rosan sentia-se orgulhosa, pois tinha demonstrado coragem e não mostrou medo aos sequestradores.
No entanto, Arkyl não se deixou preocupar com isso. Ele declarou que a sua sintrônica não cometera qualquer erro no cálculo sobre seu plano perfeito.
— É melhor você tomar cuidado, meia arcônida! Se você continuar assim, não assistirá a conclusão do plano perfeito — ameaçou o hasprone e se afastou.
Rosan deixou-se intimidar. Embora tivesse notado o nervosismo dele. Em última análise, ele era um cientista e não combatente. Aparentemente, isso só se evidenciava muito levemente.
Finalmente Rosan lançou um olhar venenoso para as duas velhinhas e então se despediu.
Ela se perguntou se não havia alguma forma de dominar os Filhos da Fonte de Matéria. Deveria haver alguma forma.
Porém, somente Perry Rhodan estava em posição de desafiar Dannos.
***
Stellara Chowfor estava em sua cama e murmurava para si mesma. Hiretta a vigiava, pois queria ter certeza de que Stellara não se levantaria novamente, enquanto estivesse tão bêbada.
Houve uma batida na porta. Pouco depois o irmão Cech-Nor e seus companheiros entraram na sala. Eles eram seguidos pelo próprio líder da seita. Ele olhou interrogativamente para Hiretta.
— Como está a irmã Stellara?
— Como você mesmo pode ver, Dannos. Ela está bêbada. E, certamente, você e seus guarda-costas não poderão ajudar.
Dannos entendeu e ordenou que Cech-Nor e seus irmãos esperassem na porta. Então ele olhou para Hiretta Livilan Arkyl sugestivamente. Ela entendeu e saiu da sala.
— Stellara! Nós amamos você — começou Dannos, sorriu e caminhou até a terrana. Ela tentou sentar-se, mas caiu nos braços de seu guru. Então ela começou a chorar.
— Eu sinto tanta falta de Tett! Ela o matou!
Dannos acariciou os cabelos loiros dela e, com o dedo indicador, secou-lhe as lágrimas do rosto.
— Nós encontraremos Tett novamente. Um dia, quando ele se juntar ao cosmocratas de Dannos. Depois disto, viverá sua vida no amor.
Stellara riu. Dannos retirou dois cigarros da carteira que estava em seu bolso. Acendeu-os e entregou um a Stellara. Ele fumou o outro cigarro.
As drogas não tinha efeito nele. Stellara ficou alegre e, de repente, estava livre de todas as preocupações.
— Você se lembra de como Tett era antes? — Stellara quis saber de Dannos.
— Oh, sim, minha criança. Livre, com amor intenso...
Ele despiu-lhe as roupas do corpo e beijou-lhe os seios. Stellara gemeu em êxtase. Em seguida, eles se beijaram intimamente e se entregaram a embriaguez da paixão.
A chantagem
No início da manhã do dia 25 de outubro do ano 1285 NCG, Coco Durandur andou a passos largos ao longo do espaçoporto comercial norte. Ele esperava por algum sinal do agourento tio Dimytran.
Finalmente um homem acenou para ele. Talvez ele tivesse uns cinquenta anos e parecia estar muito bem. Pelo menos, ele tinha mais cabelo e era muito mais magro do que o funcionário hanseático que tinha um estado físico deplorável.
Contra sua vontade, ele foi até o homem que o cumprimentou alegremente. Imediatamente Durandur reconheceu a voz desagradável. Era o tio Dimytran.
— Como você está Durandur? Vamos nos sentar, para tomar um café e uma bebida?
— Não, Senhor Dimytran. Eu estou aqui para olhar as evidências — declarou o funcionário hanseático, indiferente.
O tio Dimytran riu dele. A todo instante ele despertava a impressão a Durandur de que não estava levando tudo isso a sério.
Finalmente, ele o levou a um campo de pouso, onde estava uma nave esférica com cem metros de diâmetro.
— Este é o cruzador CERES. Na verdade, os protótipos são da Liga, porém, nós conseguimos... como diz o ditado, arranjar um — disse o tio Dimytran.
Seu sotaque era plofosense. Seriam todos os sequestradores plofosenses? Durandur estava visivelmente sobrecarregado com essa coisa toda. Afinal. ele era só um assistente do conselho e não um agente secreto.
— O cruzador CERES tem um fator ultraluz de 180 milhões. De modo que pudemos cobrir a distância em poucos dias. Agora, você quer a prova...
O tio Dimytran apontou para uma caixa que acabava de ser descarregada por um robô. Ele pediu para Durandur abrir a caixa.
— Aqui? Bem no meio do campo de pouso? Onde está a privacidade? — exclamou o terrano grosseiramente.
Dimytran apenas sorriu para ele. Finalmente Coco Durandur abriu a caixa e verificou horrorizado o conteúdo. Lá dentro, havia vários itens que pertenciam a LONDON. Fotos, vídeos, peças de aparelhos e algumas fotos que fizeram o suor escorrer da testa de Durandur.
Tremendo, ele folheou o macabro álbum de fotos. Havia fotos de dez passageiros assassinados. No fundo, havia alguns recipientes com um conteúdo vermelho.
Ele olhou perplexo para o tio Dimytran.
— Bem, as imagens não dizem nada. Nos recipientes estão às amostras de sangue dos mortos, como prova final, você pode analisar o DNA.
Durandur colocou as coisas de volta na caixa e limpou o suor da testa com um pano.
— Você é um monstro!
— Oh, obrigado — sorriu o tio Dimytran, divertido. Então, de repente ele tornou-se sério novamente. E apontou para o grande relógio na torre do espaçoporto comercial.
— A partir de agora você tem 24 horas, Durandur! Não me decepcione. Amanhã nesta mesma hora, os 150 bilhões de galax devem estar no cruzador. Em seguida, ele vai decolar sem ser molestado e voar até o meu homem de contato. Assim que o resgate chegar lá em segurança, ele entrará em contato com a LONDON. Poucos dias depois, esta mesma espaçonave CERES retornará com as coordenadas da LONDON. Só então, os reféns poderão ser resgatados.
Durandur acenou com a cabeça, deprimido.
— Mas... mas... o que acontece se não entregarmos o dinheiro?
O tio Dimytran olhou ameaçadoramente para Durandur.
— Então a LONDON será destruída com todos os homens e ratos.
***
Donald Winnerborough não ficou muito convicto com as provas. Ele as mostrou para os acionistas da Liga Hanseática, porém, eles não estavam dispostos a pagar 150 bilhões de galax aos sequestradores.
Na verdade, o valor era irrisório para a Liga Hanseática Cósmica, porém, ela tinha por princípio não negociar com terroristas. Além disso, o porta-voz hanseático não estava levando esse sequestro totalmente a sério. Tendo em vista que os materiais da LONDON poderiam ter sido roubados pouco antes da partida. As fotos e os vídeos poderiam ser falsos. As amostras de sangue também poderiam ser conseguidas ilegalmente.
As mãos de Winnerborough estavam atadas. Ele explicou a Durandur que não cederiam às exigências dos sequestradores. Mesmo que isso significasse a destruição da LONDON.
— Mas, senhor... nós não podemos ficar sentados de braços cruzados? — disse Durandur, melancólico.
— Não, você deveria se mover ainda mais, pois isso faria bem ao contorno externo de seu corpo — respondeu Winnerborough maldosamente.
Ele pediu para Durandur apanhar papel e caneta. Meio que rastejando o assistente seguiu as instruções.
— Chame a central da Liga Hanseática. Eu quero ter uma conversa pessoal com Paola Daschmagan em meia hora. Se ela não quiser, lembre a ela de Betty e de suas irmãs.
Durandur olhou confuso para o porta-voz hanseático.
— E como é o último nome da senhora?
Winnerborough balançou a cabeça, irritado.
— Eu acho que as células do cérebro já se distribuíram em torno de seu quadril. A lendária Paola Daschmagan, exatamente como eu ditei.
Durandur repetiu a mensagem e partiu imediatamente para conseguir uma entrevista com a Primeira Terrana.
***
Stewart Landry curtiu a massagem da bela mulher africana. Finalmente, ele estaria em férias. Depois que ele voasse até a rede de contrabandistas em Hayok, estas era mais do que merecida.
— Eu também posso massageá-lo em outros lugares — ela riu. Essa era a senha para o terrano nascido no estado da Inglaterra. Ele a puxou para mais perto e acariciou os cabelos negros dela.
Ele mordiscava os lábios dela quando o intercomunicador anunciou o recebimento de uma chamada. Stewart optou por ignorá-lo, mas o irritante zumbido mudou a frequência. Ele sabia o que a sequência de luzes significava. Afinal, eles tinham lhe martelado inúmeras vezes o significado dos códigos de sinal durante o treinamento: nível de alerta vermelho, o que significava que mais uma vez a merda fora lançada no ventilador. Suspirando, ele se soltou da bela mulher e atendeu a chamada.
— O que está acontecendo? — rosnou ele pelo intercomunicador.
Então ele fez uma careta quando reconheceu a voz de Gia de Moleon. Ele confirmou suas ordens. Então ela encerrou abruptamente a ligação.
A queniana fez beicinho.
— Qual é o problema, querido? — perguntou ela, aborrecida.
— A empresa precisa de mim — respondeu Stewart Landry laconicamente, vestiu-se e com um beijo se despediu da massagista.
Tão rápido quanto podia, ele voou para a central da Liga Hanseática, onde era aguardado por Paola Daschmagan, Cistolo Khan, o comissário da LTL, os porta-vozes hanseáticos Donald Winnerborough e Coco Durandur, e sua chefe Gia de Moleon, a diretora da SLT.
— Bom dia, senhoras e, naturalmente, senhores — saudou Stewart sorrindo.
No entanto, o outro não estava com vontade de rir. Com palavras rápidas Gia de Moleon descreveu o sequestro da LONDON e as exigências do misterioso chantagista chamado tio Dimytran.
Interessado, ele ouviu seus superiores. Pelo menos, era o que ele deixava transparecer. Na realidade, ele devorava a velha irritante com os olhos. Ainda constava em seu registro a referência por causa da história com Will Dean, que foi atribuído a ele para acompanhante de formação. Por que esse idiota tinha que usar o seu código de acesso para cavar os segredos da SLT? Particularmente, o que o irritava era que até agora ele não tinha descoberto como realmente foi encontrado o corpo de Will. Devia ser um cadáver, pensou ele, caso contrário, a velha Gia não teria ficado tão assustada. Ele não ficaria surpreso, se após tudo isso, ela o mandasse embora da SLT. Mas agora ela precisava dele com aparente urgência. Aparentemente a tediosa caça aos criminosos, atribuída a ele por de Moleon, tinha acabado.
— E qual é a minha missão? Seguir este tal tio? Devo esgueirar-me a bordo do cruzador? — perguntou ele finalmente.
Daschmagan lançou um olhar para Khan. O alto comissário da LTL caminhou pela sala e confessou que ninguém ali sabia exatamente o que fazer. A Liga dos Terranos Livres concordou em pagar os 150 bilhões de galax. Mas e se esse tio estivesse blefando? O problema era que a LONDON estava muito longe, para poderem descobrir o que aconteceu com ela.
— Há muitas personalidades conhecidas a bordo. Precisamos salvá-las — salientou Daschmagan.
Landry avaliou a situação por um tempo, então ele teve uma ideia.
— Bem, nós poderíamos seguir o cruzador CERES. Mas provavelmente eles estão esperando por isso. Eu poderia ser contrabandeado para bordo da nave numa das caixas protegida contra a varredura individual. Eles examinariam a caixa com atenção, mas certamente antes...
— O que você sugere, então? — perguntou Moleon cortante.
— Precisamos de um dos mutantes que nos teleportasse posteriormente para a caixa. Então, permaneceríamos a bordo e dominaríamos a nave assim que ela alcançasse a LONDON. E algumas naves podiam ficar a espera no espaço intergaláctico próximo a Andrômeda até entrarmos em contato.
A face de Moleon ficou pálida. Stewart descobriu que a velha bruxa parecia ainda mais desagradável do que o habitual.
— Nós conhecemos apenas um teleportador... observou Khan de forma comedida.
— Gucky! — completou de Moleon a contragosto. — Isso não é uma opção, Landry!
Stewart cruzou os braços sobre a barriga. Em seguida, ele coçou rapidamente a bochecha com o dedo indicador da mão direita.
— Porém, esta é a única maneira segura.
— Deixe isso comigo. Eu tenho meus contatos por lá.
Gia de Moleon olhou penetrante para ele. Landry estava ciente da sua culpa. Ele pediu ao chefe da SLT uma caixa contendo apenas três quartos de barras de ouro. Tinha que haver espaço para ele e o rato-castor. Em seguida, ele se despediu e partiu em busca do camelotiano.
Das crônicas
A LONDON tinha sido sequestrada! Isso era um choque. Aparentemente dezesseis mil galácticos estavam em grande perigo. A primeira vez que ouvi esta mensagem, eu estava sentado no banco do jardim.
O agente da SLT Stewart Landry se manteve em silêncio por alguns minutos. O que Landry não sabia era que Perry Rhodan estava a bordo da LONDON. Homer G. Adams havia me informado e tentara me convencer em ir com ele.
Graças a Deus eu recusei.
Stewart Landry sabia que eu tinha contatos em Camelot. Nosso primeiro encontro fora há quase três anos. Naquela época, o coronel Kerkum tinha atacado o escritório de Camelot em Atlan Village e sequestrado para Mashratan alguns funcionários de Camelot.
Educadamente, mas com firmeza, o agente da SLT recusou minha oferta para beber algo. O tempo passava. Naturalmente, ele estava certo. Pedi-lhe que me esperasse no terraço. Apesar de ser um outono frio, eu não queria que ele ficasse bisbilhotando em minha propriedade. Afinal, eu precisava estabelecer uma ligação com Camelot rapidamente. Corri para casa, subi as escadas para o segundo andar e fui para o meu local de trabalho.
Eu me sentia como num filme de espionagem, quando eu puxei o gatilho secreto em minha estante. A estante afastou-se para o lado e para fora da parede, mostrando a instalação de hipercomunicador especial para contato com Camelot. Ele tinha sido um pequeno presente que eu tinha ganhado há dois anos. Todo o sistema funcionava de forma independente da minha rede doméstica. Além disso, os cientistas de Camelot haviam introduzido todos os tipos de aperfeiçoamentos técnicos, de modo que, as mensagens codificadas não eram interceptadas ou mesmo decodificadas.
Enviei um pedido de contato com a mais alta prioridade, diretamente para Homer G. Adams. Os escritórios de Camelot em diferentes mundos serviam como estações retransmissoras para compensar a distância. Onde quer que Camelot esteja. Eu ainda não sabia.
Levou vários minutos antes que o rosto de Homer G. Adams finalmente aparecesse na pequena tela.
Eu descrevi a situação a ele.
— Isso é típico de Perry, quase sintomático! Onde quer que ele se encontre, alguma encrenca espera por ele — observou Adams secamente. O sequestro não pareceu perturbá-lo muito. Isso era a rotina de um homem de três mil anos de idade.
— Por favor, informe o agente da SLT que Gucky está a caminho. Espero que possamos fazer isso dentro das dezoito horas remanescentes. Enviaremos a nossa espaçonave mais rápida e ficaremos muito gratos se os militares da SLT ou a LTL não nos levarem sob custódia.
Adams terminou a ligação com um sorriso sutil. Caminhei sem pressa, afinal, eu não já era mais jovem, sai para fora e fiquei chocado com o frio. Neste momento, eu percebi que fui um mau anfitrião.
— E aí? — quis saber Landry.
— Eles já estão a caminho.
— E como faço para encontrá-los?
Acenei para ele e sorri.
— Senhor Landry, ele é Gucky! Ele o encontrará!
O agente da SLT ficou satisfeito e agradeceu pela minha ajuda. Sem dúvida, ele também poderia ter-me pressionado, assim como outros espiões e funcionários do governo certamente teriam feito.
Talvez um fim para Guerra Fria entre Camelot e a Terra também estivesse lenta, mas seguramente à vista. Eu gostaria disso pelo menos para mim. Com os melhores cumprimentos, desejei sorte ao agente.
Agora meus pensamentos estavam voltados as 16.022 criaturas a bordo da LONDON. Talvez tenha sido muita sorte que Perry Rhodan estivesse a bordo. Mas não havia garantias.
Desejo que todos encontrem o caminho de volta à Via-Láctea saudáveis e ilesos.
Jaaron Jargon
27 de outubro do ano 1285 NCG
Truques
27 de outubro do ano 1285 NCG
Ainda faltavam 25 minutos para terminar o ultimato. O tio Dimytran assistiu ao carregamento do ouro no cruzador CERES. Conforme solicitado, apenas robôs foram utilizados na operação. Não muito longe do campo de pouso, ele descobriu o porta-voz hanseático Winnerborough e seu assistente Durandur.
Tudo correu exatamente conforme o plano cósmico do pai Dannos. A nave deixaria a Terra totalmente carregada com ouro. Como o cruzador CERES possuía excelentes sensores de semiespaço, eles seriam capazes de rastrear qualquer perseguidor em qualquer direção dentro de mais de 1.000 anos-luz.
Seus aliados tinham reforçado o cruzador CERES com uma proteção especial contra localização. Dimytran sabia que sem o apoio de Mordred seu plano nunca se realizaria.
Dimytran não sabia muito sobre esta organização terrorista que agiam de longe e na obscuridade.
Alguns deles eram registrados como passageiros na LONDON. Eles eram treinados como assassinos. Eram homens grosseiros. Dannos gaguejou algo sobre um Cavaleiro Prateado. Dimytran não sabia se ele realmente era um dos Mordred ou apenas um subproduto de alguma viagem.
Naturalmente, os agentes da SLT que, sem dúvida, tinham consultado a Liga Hanseática, suspeitavam que eles rumassem para Andrômeda.
No entanto, seu destino estava num sistema solar remoto na galáxia UGCA-092.
O tio Dimytran sorriu satisfeito com a astúcia do sectário. Aparentemente, ele mesmo não estava cem por cento convencido de que se tornaria um cosmocrata. No entanto, se seu plano em Erranternohre falhasse, pelo menos, ele não retornaria como um homem pobre.
***
Stewart Landry olhava impaciente para seu relógio. Não lhe restava muito tempo. Ele se perguntou se Gucky realmente ainda apareceria. Caso não aparecesse, provavelmente ele ficaria ali com cara de palhaço e finalmente ele poderia desistir de sua carreira na SLT. De Moleon provavelmente aproveitaria a oportunidade para finalmente se livrar dele. Talvez até permitisse que ele varresse a Torre do SLT. Mas certamente não confiaria mais nele.
— Sua preocupação é infundada — gritou alguém com uma voz estridente.
Landry se virou. Por um breve momento ele prendeu a respiração. Era a primeira vez que ele ficava face a face com o rato-castor. Além do pequeno ilt, havia também um arcônida alto. Que só podia ser o antigo Lorde-Almirante da USO!
— Você leu meus pensamentos — observou Landry em tom de censura.
Gucky deu uma risadinha.
— Pelo menos, eu não falei nada sobre com quem você prefere gastar o seu tempo atualmente.
Diante dos olhos da mente de Landry, surgiu a imagem da bela mulher e excelente massagista. Rapidamente ele se obrigou a pensar em outra coisa.
— Agradeço-lhes por terem vindo. A SLT gastou muita força de vontade para pedir-lhes ajuda.
Atlan sorriu.
— Eu posso imaginar. Pois bem Landry, você tem o aval de Jaaron Jargon. É bom saber que nem todos os terranos desconfiam de nós.
O arcônida afirmou que eles gostariam de ajudar. No entanto, ele ocultou o fato de que Perry Rhodan estava a bordo da LONDON. Naturalmente, os camelotianos fariam qualquer coisa para salvar a vida das dezesseis mil pessoas. O fato de que Perry Rhodan também participava do voo inaugural da LONDON, no entanto, era uma importante razão para se envolverem no resgate da LONDON.
Stewart Landry resumiu seu plano para os dois. Ele já tinha embalado uma mochila com comida. Certamente a viagem no cruzador levaria duas semanas.
Atlan afirmou que ele os seguiria despercebidamente com o cruzador FREYJA. Presumivelmente, a Liga também usaria uma espaçonave. Rindo, o arcônida informou que tinham os planos de construção do cruzador CERES e tinha encontrado uma maneira de evitar o sensor de semiespaço.
No entanto, eles não queriam arriscar. Assim que o cruzador alcançasse o local de destino, Landry e Gucky precisavam dominar a tripulação. Em seguida, eles deveriam informar a FREJYA. E todo o resto se seguiria.
Landry e Gucky estavam prontos. E o ouro enviado já havia sido examinado. Agora, Gucky precisava saltar para o cruzador e retornar com as barras de ouro de um recipiente. Assim haveria espaço suficiente para o rato-castor e o terrano.
Atlan desejou-lhes boa sorte. Ele viu quando o tal tio Dimytran desceu para o campo de pouso e caminhou até os dois funcionários hanseáticos. O ultimato havia terminado!
***
— Quão doce pode ser a despedida — brincou tio Dimytran enquanto ia ao encontro de Durandur e Winnerborough.
— Espero ter feito tudo para sua completa satisfação — indagou Winnerborough.
O tio Dimytran assentiu com a cabeça.
— Num mês você vai descobrir. Ou você receberá as coordenadas da LONDON ou outras amostras de sangue. Até lá ou famal gosner, como dizem em arcônida.
Ele os deixou e voltou para a nave esférica. Poucos minutos depois, a escotilha da espaçonave fechou-se e ela decolou. Durandur e Winnerborough ficaram olhando a espaçonave por um longo tempo.
— Um tipo arrogante — murmurou o porta-voz hanseático.
— Assim como o senhor — retrucou Durandur.
— Como?
— Sim, senhor. Venho por meio desta entregar-lhe meu aviso prévio. Tenho suportado sua humilhação por tempo suficiente. Você precisa saber que minhas células cerebrais não se espalharam para os meus quadris — respondeu Durandur, virou-se e deixou o porta-voz hanseático estático como um garoto estúpido. Este olhou confuso para as costas do seu ex-assistente e não entendia mais o mundo.
A última parte do plano perfeito
A LONDON se afastava cada vez mais para longe de Triangulum e saiu do hiperespaço para determinar sua localização. A pausa foi usada para recarregar o acumulador gravitraf.
Rhodan foi ao convés nas imediações da sala de rádio, embora ficasse no mesmo convés que a central de comando, era separado dela por um longo e estreito corredor.
Rhodan sondou quantos homens de Dannos estavam guardando a sala. Havia apenas dois guardas na central de rádio. Sparks, o oficial de rádio, não estava no local. Rhodan deu um sinal a Sam que foi até a central de rádio para desviar a atenção dos Filhos da Fonte de Matéria.
— Bom dia, senhores!
Os dois se viraram. Eles sacaram suas armas.
— O que você quer? — perguntou um deles.
Sam fez uma careta de censura.
— Eu não permito que vocês me tratem informalmente. Enfim, eu preciso de sua ajuda. Descobri um passageiro que tem um aparelho de hiper-rádio. Eu não quero que ele faça tolices e, assim, coloque em perigo a nossa segurança.
Os dois guardaram suas armas outra vez. Nenhum deles se perguntou por que o somerense não mostrou surpresa com a visão dos radiadores. Eles souberam por Dannos que ele estava informado sobre o sequestro.
— Eu espero que isso não seja um truque — ameaçou um deles.
— Não, senhor. Eu estou preocupado com o bem-estar dos reféns. Eu não quero que mais dez pessoas morram.
Isso soou bem plausível para os dois sequestradores. Eles conversaram rapidamente e esperavam com isso impressionar o pai Dannos quando confiscassem o aparelho de rádio. Então, eles seguiram a pequena criatura semelhante a um pássaro, deixando a central de rádio. Rhodan aproveitou a oportunidade e entrou na sala de rádio. Ele ativou o sistema e contornou a sintrônica que estava nas mãos de Dannos.
— Aqui é Perry Rhodan – Código Rotfall – a LONDON foi sequestrada por terroristas. Estamos acerca de 500 mil anos-luz de Andrômeda e perto de Triangulum. Curso desconhecido.
Ele ainda transmitia as coordenadas exatas, quando sentiu um violento golpe no pescoço.
***
Quando Perry Rhodan acordou, ele percebeu que o rosto peludo da hasprone Hiretta Livilan Arkyl. Ela enxugou a testa de Rhodan com um pano úmido. Ele olhou em volta. Olhou para Herban Livilan Arkyl, o homem que havia infectado a sintrônica da nave com um vírus, alguns dos “irmãos” de Dannos e o próprio líder.
Arkyl sorriu sarcasticamente e tragou uma espécie de cigarro. O guru, no entanto, sentou-se calmamente na cama.
— Isso foi muito imprudente — disse o pai Dannos ameaçador.
Rhodan levantou-se e sentou-se na cama.
— Agora você vai me matar? Assim como os dez inocentes?
— O destino daquelas criaturas era inevitável — disse Dannos sem remorso.
— Havia crianças entre elas. Você não passa de um assassino nojento. Mas você não vai safar-se. Seu destino é inevitável! Eu vou me certificar pessoalmente disso!
Essa foi uma explosão emocional bem incomum em Rhodan que habitualmente era prudente.
Dannos começou a rir em voz alta.
— Você me diverte, Rhodan!
Então seu rosto ficou sério novamente.
— Você não deveria citar grandes provérbios. Sua vida está em minhas mãos. Eu posso matá-lo no momento que eu quiser.
— Então, você já deveria ter feito isso — Rhodan respondeu objetivamente.
Anbol aproximou-se de Dannos.
— Nós retornamos novamente ao hiperespaço. Certamente a viagem vai durar mais de uma semana — disse ele à Dannos.
— Estamos indo para onde? — perguntou Rhodan.
Dannos se levantou e caminhou pela cabine.
— Agora eu vou apresentar-lhe os detalhes do meu plano cósmico perfeito. A LONDON está indo em direção a uma fonte de matéria. Ou seja, a única conhecida. A fonte em que Kemoauc, Laire e Atlan entraram.
Rhodan revirou os olhos. — Vamos levar anos até chegarmos lá!
— Nós sabemos disso — respondeu Dannos.
— A LONDON tem capacidade e alcance de nos levar até lá. Mas vamos voar sozinhos. Todos os passageiros serão desembarcados num planeta na galáxia UGCA-092. As pessoas contratadas para o sequestro, como Craig Anbol retornarão com um dos space-jet existentes a bordo desta nave e nós encontraremos com meus irmãos no meio do caminho para a fonte de matéria. Em cerca de seis meses todos vocês serão salvos.
Rhodan não sabia o que dizer. Ele estava mesmo surpreso com a Humanidade do plano de Dannos.
— Existe alguma civilização no planeta? — perguntou ele.
Anbol negou.
— Os passageiros não estão treinados para lutar pela sobrevivência. Muitos são velhos ou crianças. Isso equivale a matá-los — disse ele.
Pai Dannos cruzou os braços.
— Bem, Perry Rhodan, a partir de agora o problema é seu. Anbol prepare as cápsulas de salvamento. Levaremos nelas os dezesseis mil seres para a superfície do planeta.
Aurec
Procure o portão estelar nas profundezas de Saggittor. Quando encontrá-lo, parta com a sua espaçonave para as coordenadas encontradas e voe através do portal. Você chegará a um grupo de galáxias desconhecidas. Que é denominada de Grupo Local.
Explore esta zona do Universo.
Observe especialmente os terranos da Via Láctea, mas só se revele a eles em caso de emergência.
***
Aurec pensou nas palavras da superinteligência SAGGITTORA. O saggittonense olhou para a parede de metal cinza de seus aposentos, enquanto estava deitado no escuro confortavelmente sobre o sofá de contorno de veludo vermelho e refletia sobre o significado das palavras da superinteligência.
Ele seguiu as instruções. Depois de oito semor, eles descobriram esta estação oculta num setor desabitado e remoto de Saggittor. A estranha estação secreta tinha criado um portal de energia circular no meio do vazio do espaço sideral, através do qual a SAGRITON voou. De acordo com as instruções que ele recebeu pessoalmente, aquelas eram as coordenadas de destino, transmitidas por hiper-rádio como lhe dissera a superinteligência. Dentro de poucos minutos, eles alcançariam o objetivo.
O que quer que estivesse por trás desta tecnologia era muito mais poderoso do que qualquer coisa que o saggittonense já tinha visto anteriormente na galáxia.
Eles atravessaram outro portal, pelo menos, era o que eles suspeitavam, reapareceram num ambiente totalmente desconhecido e imediatamente iniciariam um voo de regresso de volta para Saggittor. Ele foi bem-sucedido. Aparentemente as coordenadas do destino deste portal estelar foram demarcadas. Onde eles não sabiam. Os cientistas mais hábeis a bordo da orgulha SAGRITON quebravam a cabeça a esse respeito.
A inspeção das quatro estações de energia desconhecidas, que aparentemente abasteciam o portal com energia, não foi bem-sucedida, uma vez que estas simplesmente se transferiram para um continuum de nível superior, tão logo se aproximava delas ou tentava explorá-las com raios rastreadores.
Eles eram estranhos num grupo de galáxias que estava a uma distância entre 19 e 24 milhões de anos-luz de casa, isso os astrônomos tinham descoberto. Até agora nunca um saggittonense havia penetrado tão profundamente no espaço intergaláctico.
Aurec levou a sério o conselho da superinteligência SAGGITTORA, para evitar o contato com os habitantes deste grupo de galáxias. Aurec estava orgulhoso de que seu pai Doroc tinha lhe confiado esta missão histórica. Ele jamais queria decepcionar o chanceler e os povos de Saggittor.
O almirante Dolphus causou mais preocupação a Aurec. O reacionário e excêntrico comandante da frota não quis deixá-lo participar da expedição. Ele aconselhou Aurec inúmeras vezes, durante o generoso jantar habitual e após terem bebido alguns sorfas, de que eles deveriam aproveitar a expedição para analisar os pontos fortes e fracos dos povos encontrados.
Mas a coisa mais preocupante foi o que Dolphus falou no último jantar, quando ele bebeu apenas suco de aljada. Ele via o portal estelar como a melhor arma para a conquista de outras galáxias e para enriquecer com os recursos encontrados.
Aurec contestou decidido. Não era a natureza dos saggittonenses explorar outros povos. Eles já tinham tudo o que precisavam. Por que acumulariam mais riquezas? Por que deveriam ter mais do que os outros? Aurec estremeceu com esse pensamento repugnante. Ele descobriu há algum tempo, que este perigoso espírito da época tinha se desenvolvido na frota.
Talvez os militares também foram desafiados. Há muito tempo não havia mais guerras em Saggittor. Aparentemente, a frota tinha sede de um confronto em regiões desconhecidas do cosmos.
Mas não ele! Ele estava ali puramente para fins pacíficos. Mas o que eles procuravam ali, não estava claro. SAGGITTORA não tinha dito nada sobre isso. De qualquer modo, foi uma surpresa quando a superinteligência entrou em contato com os saggittonenses. Originalmente, ela sempre havia falado com o holpigonense Utzmuk e, então, ela apareceu como oráculo ao chanceler e sua família dizendo estas frases ameaçadoras.
Aurec sempre acreditou que SAGGITTORA fosse apenas um mito. Ele estava errado.
A SAGRITON estava a caminho de uma galáxia espiral, que tinha o nome de Andrômeda ou Hathorjan, levando as hipermensagens interceptadas. Nos últimos oito semor de sua presença passiva neste setor, o localizador havia registrado inúmeras mensagens de hiper-rádio, que gradualmente, foram traduzidas pelos tradutores. Depois de realizar os primeiros reconhecimentos na galáxia, finalmente, foram enviadas sondas de detecção para coleta de informações específicas.
Andrômeda era uma das galáxias mais importantes deste setor, juntamente com a Via Láctea e Hangay. Presumivelmente, eles demorariam de um a dois anors até que coletassem informações suficientes no Grupo Local.
Aurec não sabia inicialmente o que fazer com elas, embora tivesse sido fascinante e incomparável observar tantos povos novos. Seu objetivo era o espaço vazio entre as duas ilhas de estrelas maiores. Provavelmente lá eles obteriam mais informação.
Aurec bebericava sua bebida quente enquanto estudava o mapa estelar holográfico do Grupo Local.
A variedade de povos diferentes era muito maior do que em Saggittor. Naturalmente, uma atenção especial foi dada aos terranos, como SAGGITTORA havia mencionado expressamente. Essa era a missão especial da protetora da galáxia Saggittor, observar o povo terrano. E era isso que ele faria.
O Almirante
Dolphus estava orgulhoso de sua espaçonave. A magnífica SAGRITON certamente era a nave de guerra mais poderosa da galáxia Saggittor e, certamente, era muito superior às das criaturas do Grupo Local. Com um diâmetro de oito altos-reto, ela era inigualável.
O almirante Dolphus entronizado em sua poltrona de comando observava a equipe no trabalho. Ele estava orgulhoso de sua equipe.
“Eles trabalham diligentemente, como convém a um saggittonense digno”, pensou ele.
Finalmente, eles tinham uma tarefa significativa. Ele estava cansado das constantes manobras inúteis.
“Vamos à guerra, em vez de brincar de guerra”, era o seu lema.
De sua cabine, ele tinha uma visão geral de toda a central de comando circular da SAGRITON. Tudo corria bem ali. Diante dele, estavam os registros em forma de hologramas, mapas estelares e uma grande projeção panorâmica. À sua direita, ficavam os postos de trabalho dos navegadores, engenheiros de voo e as várias modalidades de pesquisa científica — estes últimos ele poderia dispensar a qualquer momento. Especialmente porque repetidamente os corpos curvilíneos distraiam a atenção, eram como um espinho pontiagudo na carne, havia mulheres a bordo. A outra metade da central de comando era dominada pelos postos de artilharia e pela central de rádio e de rastreamento. Os olhos de seus oficiais do controle de artilharia pareciam cheios de orgulho com suas obrigações — todos os seus homens eram treinados por ele e leais a ele. Porém até mesmo ali, o novo espírito tinha tomado conta, este rapaz bem-nascido, que se chamava pomposamente de Príncipe de Saggittor, praticamente o obrigou a diplomar as primeiras mulheres da Academia da Frota Estelar. Isto simplesmente era uma vergonha. Não que ele tivesse alguma coisa contra as mulheres, ao contrário, no ambiente certo... mas ali, a bordo de uma nave de guerra, com seu sentimentalismo simplesmente desencontrado. Agora, ele e seus rapazes mostrariam a essas cadelas presunçosas que a frota não havia lugar para essas atrevidas com coroas de flores.
O almirante preferia o cinza dominante nas espaçonaves. Era mais simples acompanhar e expressar o espírito militar. Ele era apenas um guerreiro. As cintilantes construções ricamente ornamentadas e uma casa mobiliada pouco lhe interessavam. Sentia-se mais confortável numa nave de guerra e comer um simples aeticua e beber uma simples queca com os seus homens, em vez de se empanturrar em festas pomposas, com todos os tipos de comidas exóticas.
Ele gostava do brilho da luz artificial e do negrume do nada com seus incontáveis bilhões de pontos brancos, quando olhava para a projeção central da janela panorâmica.
O Universo era grande e poderoso. Os saggittonenses só tinham que conquistá-lo.
Um operador de rádio barbado com a pele morena aproximou-se do almirante, que também era o comandante da frota saggittonense. Ele bateu com o punho no peito.
— Meu Almirante! Recebemos uma mensagem de rádio.
— É mesmo? — perguntou Dolphus desconfiado. — Qual é o conteúdo da mensagem?
— Ela foi enviada numa língua desconhecida — informou o saggittonense. — Nós não pudemos decifrá-la corretamente. Provavelmente é um pedido de socorro a uma nave chamada LONDON. Um certo Perry Rhodan informou as coordenadas. A espaçonave se afasta da ilha estelar com o nome Triangulum. Não estamos longe do local especificado.
Dolphus recostou-se pensativo. Ele ouviu a mensagem de rádio outra vez. O tradutor teve dificuldade com o intercosmo. Raramente ele era falado nas regiões próximas a galáxia Andrômeda.
Ele olhou para o operador de rádio, que involuntariamente ficou ainda mais rígido, quando sentiu o olhar do almirante.
— Vamos investigar esta mensagem de rádio. Toda a tripulação para as estações de combate. Nós voaremos até estas coordenadas — ordenou Dolphus.
— Sim, Meu Almirante — os oficiais confirmaram.
A SAGRITON acelerou até a velocidade ultraluz. A espaçonave desconhecida foi localizada a cerca de oito mil anos-luz da SAGRITON. Dolphus instruiu o primeiro-oficial Waskoch para ativar a localização hiperespacial antes que eles perdessem a espaçonave desconhecida novamente.
O instinto de caçador despertou em Dolphus.
— Devemos informar Aurec? — perguntou Waskoch.
Dolphus acenou.
— Não, o filho do chanceler está sobrecarregado. No momento temos...
Dolphus queria impedir que Aurec se intrometesse. Talvez o encontro com a espaçonave desconhecida evoluísse numa pequena batalha espacial. Finalmente uma batalha! Dolphus não desejava ser orientado por esse covarde afetado.
Encontro no espaço vazio
1º de novembro do ano 1285 NCG
A LONDON deixou as galáxias Andrômeda e Cata-vento para trás. Ela se encontrava no espaço vazio entre M-33 e mais à direita a galáxia inexplorada de UGCA-092.
Esta área do Grupo Local era escassamente explorada. Ela era ideal para os planos de Dannos. Quem pensaria em procurá-los e encontrá-los justamente ali? Um lugar isolado e desolado.
Alguns pequenos amontoados de estrelas que se moviam no espaço vazio entre as galáxias. A galáxia mais próxima era a inexplorada UGCA-092.
A LONDON saiu do hiperespaço.
Sob a orientação do irmão Toss as cápsulas de salvamento foram preparadas. Perry Rhodan foi trazido ao convés sob forte vigilância.
— Aqui? — perguntou ele a Dannos.
O guru desabotoou a sua túnica e sorriu com um olhar amável.
— Eu sou misericordioso. A treze anos-luz daqui existe uma estação abandonada dos tefrodenses, ela está registrada em nosso banco de dados. O planeta é habitável, embora não seja um paraíso. Aqui os nossos caminhos se separam.
***
— Eles saíram do hiperespaço — exclamou o primeiro-oficial Waskoch.
Dolphus fechou o punho e golpeou o braço da poltrona de comando.
Por fim, ele conseguiu. Depois de acompanharam essa espaçonave desconhecida por quase dois semor, eles finalmente lhe deram a oportunidade de atacar. Há algum tempo ele tinha convencido os cientistas e Aurec, o filho do chanceler, de que deveriam passar algum tempo neste setor.
Aurec estava muito ocupado com o resumo geral dos registros dos dados anteriores. Ele literalmente os absorvia, enquanto Dolphus realizava sua perseguição clandestina. Embora o saggittonense soubesse que ele observava uma espaçonave desconhecida, porém, ele queria ser informado imediatamente se houvesse um contato e emitiu uma ordem para evitarem o contato direto.
Dolphus pretendia ignorar este comando. Dolphus queria confrontar-se com a espaçonave desconhecida.
Era chegada a hora. A espaçonave desconhecida tinha emergido do hiperespaço e estava vulnerável.
— Prontidão de combate. Seguir num curso de interceptação. Nós não podemos deixar a espaçonave desconhecida escapar de novo!
***
Pai Dannos foi para a ponte e ordenou a sintrônica que chamasse todos os passageiros para o convés. Inicialmente muitos dos passageiros não levaram o convite a sério. Dannos instruiu os oficiais para retirarem as pessoas de suas cabines. Gradualmente, os primeiros passageiros se reuniram no piso térreo do salão do observatório astronômico.
Os Filhos da Fonte de Matéria começaram a trazer os primeiros galácticos para a seção do hangar.
A maioria dos passageiros não tomou parte no exercício. Os Filhos da Fonte de Matéria estavam ocupados correndo pelos corredores e conveses, para chamar a atenção dos passageiros para o “exercício”. O irmão Cech-Nor entrou nervoso no andar de comando e foi até o seu guru.
— Pai, não está funcionando do jeito que nós planejamos!
Rhodan sorriu. — Será que o cosmocrata cometeu algum erro? Eu pensei que você era o papi onisciente!
A frustração pelo assassinato dos dez passageiros ainda alfinetava Rhodan. Ele não havia esquecido a gravação da menina morta com os olhos abertos.
Dannos ficou vermelho e começou a falar de forma incoerente. Ele cambaleou e teve de ser tranquilizado. Em seguida, ele se recompôs.
— Meu plano é perfeito! Fui convertido no caminho cósmico e experimentei a iluminação.
Rhodan riu, atormentado.
— Depois de quantos cogumelos psicodélicos isso aconteceu?
— Você ainda vai parar de rir, camelotiano! Vamos levá-los. Atirem em todos os que não obedecerem! — ordenou ele.
***
Enquanto isso, Craig Anbol e Herban Arkyl foram convocados à ponte de comando.
O hasprone explicou a Anbol que a sintrônica dava informações falsas ou errôneas. Foi por isso que a espaçonave desconhecida não fora localizada até agora. No entanto, mesmo a nave estando tão perto que eles já poderiam avistá-la a olho nu.
Um colosso em forma de disco, com cerca de cinco quilômetros de diâmetro, se aproximou rapidamente da LONDON. Numerosas torres se ergueram na espaçonave desconhecida. Na extremidade das torres repousava a nave esférica.
Uma mensagem de rádio foi recebida na LONDON.
Mugabe Sparks informou: — O idioma é desconhecido. Pode demorar alguns minutos até que possamos traduzi-la.
Anbol estava inquieto.
— Quais os sistemas de armas que temos a bordo?
Anbol ativou o sistema de escolha de alvo da arma.
— Não deveríamos informar Pai Dannos da sua intenção? — perguntou Arkyl.
— Não temos tempo.
***
A nave desconhecida alcançou a LONDON e voou sobre as plataformas de passageiros da luxuosa nave espacial. Os passageiros entraram em pânico.
Perry Rhodan observou os acontecimentos do hall de entrada perto da central de comando. A inquietação surgiu. Os Orbanashol se sentiram ameaçados e o naat bateu os pés no meio da multidão, enquanto Dannos gritou suas ordens em voz alta, pois ninguém parecia entendê-lo. Rhodan aproveitou o barulho e correu para a central de comando.
Pouco antes de ele chegar lá, a LONDON disparou sobre a espaçonave desconhecida.
O feixe de energia foi neutralizado pela luz azul do campo defensivo da nave desconhecida. Um clamor atravessou os passageiros da LONDON. As pessoas queriam pôr-se em segurança.
Rhodan invadiu a central de comando em que Arkyl e Anbol estavam. Anbol atirou com seu radiador térmico em Rhodan. Este procurou cobertura atrás da cobertura do painel de controle.
— Desta vez eu vou matá-lo! — sibilou o mercenário.
No entanto, ele estava distraído com a estranha nave, esta aumentou a velocidade e sobrevoou a LONDON. Depois de alguns milhares de quilômetros, ela virou-se e se dirigiu para a LONDON.
Rhodan saltou e agarrou Anbol. Ele arrancou a arma de sua mão. Ambos lutaram pela arma. Rhodan conseguiu se desvencilhar de Anbol, mas ele tirou uma pequena arma de fogo manual da manga e apontou-a para o terrano. Arkyl deixou a estação de comando despercebidamente.
Dannos entrou apressadamente.
— Por que vocês atiraram nela? — perguntou ele.
Anbol virou-se irritado. Rhodan pegou o radiador térmico. O mercenário virou-se para Rhodan e quis disparar no camelotiano que estava sem cobertura, mas ele foi mais rápido. Ele disparou dois feixes de energia diretamente em Anbol. Este foi trespassado. A energia térmica do mercenário atingiu a parede. Ele olhou pela última vez para Rhodan, antes de cair morto.
— Isso foi pela menina e pelos outros nove! — proferiu Rhodan friamente.
Ele apontou a arma para Dannos, que parecia atordoado.
— Pai, o teu plano perfeito falhou!
Atordoado o pai Dannos olhou ao redor da sala e segurou sua cabeça.
— Não... não... isso não é possível — gaguejou o guru.
A nave desconhecida estava a uma distância de trezentos quilômetros da LONDON, numa órbita estreita. Rhodan tentou retomar o contato com o desconhecido para esclarecer o mal-entendido. Mas antes que pudesse ativar a instalação de hipercomunicador, a LONDON parecia ser envolvida por uma cascata energia roxa. Só agora ele percebeu que Anbol não tinha ativado o campo defensivo. Ele desmaiou e caiu no chão.
***
— Meu Almirante, a nave desconhecida foi posta fora de ação! — informou o oficial de controle de artilharia.
Dolphus levantou-se. E cruzou os braços atrás das costas.
— Excelente. Mais uma vez provamos que os saggittonenses são os melhores soldados — disse ele patriótico. — Esta nave disparou em nós traiçoeiramente. Isso significa que eles são inimigos. Agora tomaremos a espaçonave para Saggittor – como um despojo glorioso!
— Nós não devemos informar Aurec agora? — quis saber o primeiro-oficial Waskoch.
Dolphus balançou a cabeça várias vezes. — Sim, vamos informá-lo. Ele ficará impressionado com o que levaremos para a República!
Aurec interrompeu momentaneamente seu trabalho. Mas depois ele se encaminhou enfurecido para a central de comando.
— O que está acontecendo? Quem foi que isolou minha cabine da rede de comunicação? O que é isso?
— Provavelmente deve ter sido um defeito técnico — mentiu Dolphus. — Tivemos contato com o inimigo. A espaçonave desconhecida foi neutralizada.
Secretamente, Dolphus planejava começar uma guerra com os desconhecidos. Com isso ele esperava obter mais poder e uma ampliação dos domínios dos saggittonenses. Em sua opinião, os tempos de paz já duraram muito.
— Dolphus, o que você fez?
As expressões de linguagem ainda eram de grande importância para os saggittonenses. Somente amigos íntimos ou membros da família podiam chamá-lo de “você”.
— Nada, só nos defendemos.
A SAGRITON ativou o campo de tração e assim a LONDON foi acoplada. O comando de abordagem ocupou a nave. Depois disso a SAGRITON aumentou a velocidade e com a LONDON a reboque entrou no hiperespaço.
Dolphus virou-se satisfeito.
— Nós tivemos uma pitada de aborrecimento!
Ele descreveu o incidente a Aurec. Embora tenha exagerado um pouco e apresentado os desconhecidos como os agressores.
— É por isso que eu estou firmemente convencido de que devemos apreender a nave e interrogar os estranhos para nos proteger contra um possível perigo! — concluiu ele o seu discurso.
Aurec sentou-se. Ele pensou por algum tempo. Então ele decidiu: — Tudo bem, vamos levá-los conosco. Navegador, traçar o curso para o portal estelar.
O saggittonense
A LONDON seguia tranquilamente pelo espaço sideral. Com um brilho azul ao redor dela. Era um campo de tração da SAGRITON, a nave que havia paralisado toda a tripulação e todos os passageiros da luxuosa nave terrana e que queria levá-los a sua galáxia de origem Saggittor.
O almirante Dolphus estava orgulhoso de sua conquista, por ter subjugado a nave estrangeira. Muitos cientistas já trabalhavam na LONDON para introduzir a linguagem dos estranhos nas tradutoras saggittonenses.
No entanto, Dolphus não era o líder da expedição. Esse era Aurec, o filho do Chanceler da República. O jovem saggittonense ainda estava em sua cabine e estudava os estranhos. Os cientistas apresentaram seus resultados somente para agradá-lo.
Para Dolphus, no entanto, Aurec nada mais era do que um pequeno, um garoto estúpido, que, no entanto, foi avaliado como perigoso. O saggittonense desprezava a atual política da República saggittoniana. A cooperação de igualdade com os holpigonenses, varnidernenses, troetternenses e outros povos não o agradava.
“Os saggittonenses estão destinados a governar”, pensou ele convicto. “Ele não trabalharia com seres inferiores.”
A ideia de Dolphus era de um grande império que se estendia de Saggittor a inúmeras galáxias. Os saggittonenses deveriam estar acima de todos e todos os outros deveriam servi-los.
Aurec não compartilhava dessa opinião. Ele era um defensor da paz, assim como seu pai. Portanto, toda a família do chanceler estava no caminho de Dolphus. Entre os homens mais poderosos da República ele estava atrás de Doroc, pai de Aurec e de Aurec. Ele já havia pensado muitas vezes em dar um golpe de Estado, mas até agora ele sempre vacilara em seguir em frente. Doroc e Aurec eram altamente respeitados entre o povo. E provavelmente ele não encontraria seguidores suficientes para um golpe de Estado. Mais uma vez ele esperava, porém, algum dia sua hora chegaria.
Mesmo depois do voo através do portal estelar a LONDON se mantinha no reboque da SAGRITON. O temor de que a tecnologia desconhecida do portal romperia o campo de tração não se concretizou. No entanto, foi impossível examinar as centrais energéticas mais de perto. A simples aproximação de uma espaçonave fazia com que elas simplesmente desaparecessem.
Dolphus já podia reconhecer a galáxia Saggittor.
Ela era grande, muito grande — muito maior do que Andrômeda. No entanto Saggittor não possuía a luz que se irradiava do centro, como todas as outras galáxias conhecidas. O núcleo era revestido por escuridão e atravessado por grandes faixas grisalhas. Extensas nebulosas escuras de poeira cósmica e longínquas massas de matéria escura dominavam a região do centro.
Elas se estendiam ao longo de um raio de oito mil anos-luz. A imagem fazia a galáxia tão especial. No entanto, o que havia exatamente no centro, ninguém sabia. No passado todas as tentativas de penetrar na área haviam falhado. Contudo, todos estavam de acordo e grande parte supunha que nesta misteriosa região havia invasores desconhecidos que oprimiam a galáxia por milênios.
Dolphus não se importava. No momento, ele se concentrava em provocar um conflito com os desconhecidos, de modo que, mais uma vez, finalmente teria uma guerra. Nela, ele via seu propósito de vida. Por que razão um almirante merecia envelhecer em tempos de paz? Para nada! Intermináveis exercícios nunca poderiam substituir a sensação que surgia entre as tempestades de radiação de uma batalha espacial.
Além disso, o almirante estava convencido de que poderia aumentar o poder dos saggittonenses através de uma guerra — com ele como seu principal general.
***
Rhodan recobrou seus sentidos lentamente. Para sua surpresa, ele acordou numa cama e não na central de comando, onde ele havia ficado inconsciente.
Ele levantou-se e olhou em volta da cabine. Ela não era a sua. Perry ainda estava um pouco grogue, devido às sequelas da paralisia. O terrano caminhou trôpego até o banheiro e manteve a cabeça debaixo da torneira da pia. A água fria o estimulou. Então ele pegou uma toalha e secou um pouco os cabelos.
— Muito bem, sintrônica. O que aconteceu? — perguntou ele.
No entanto, a sintrônica não respondeu. Rhodan murmurou um comentário depreciativo sobre os computadores, em seguida, ele foi até a porta e saiu da cabine. Ele olhou no corredor, mas não havia ninguém ali. Nem mesmo o androide de limpeza que sempre estava em algum lugar, ocupado em manter tudo limpo. Rhodan levou algum tempo para descobrir exatamente onde ele estava.
Ele prosseguiu através da plataforma de recreação. Ao longo do caminho, ele não avistou nenhum galáctico. A LONDON era como uma nave fantasma. Ele decidiu ir até sua cabine. Porém, alguém já estava deitado em sua cama. Era Rosan Orbanashol. Perry estava um pouco surpreso em ver a beldade deitada em sua cama.
Em seguida, ele cuidou da meio arcônida. Rhodan acordou-a de forma mais ou menos suave. Levou algum tempo até ela se orientar. Quando ela reconheceu o rosto de Rhodan, ela olhou horrorizada para ele.
— Onde estou? — perguntou ela atordoada.
— Ainda na LONDON — respondeu Rhodan. — Uma coisa é certa. A única questão é onde a LONDON está...
Rosan olhou interrogativamente para ele.
— Primeiro vamos voltar até o salão do observatório astronômico. Talvez nós encontremos mais alguém por lá — disse Rhodan.
Rosan se levantou e seguiu o camelotiano.
— Onde está Wyll? — perguntou ela ansiosa, enquanto caminhavam em direção ao salão do observatório.
— Provavelmente ele também deve estar em alguma cabine e acordará lentamente como todos os outros — respondeu Rhodan.
Ambos chegaram à plataforma de recreação do salão do observatório. Mas não viram nenhum passageiro nem os tripulantes em lugar nenhum. A LONDON estava envolta por um campo energético azul. Rhodan percebeu na diagonal a enorme espaçonave desconhecida que havia disparado o radiador paralisante na LONDON. A nave rebocou a LONDON para uma galáxia que Perry Rhodan identificou como M-64. Ela foi reconhecida por causa de suas nebulosas escuras no núcleo como um “olho roxo”. — Por isso, ele estava relativamente seguro de que ele estava certo em sua conjectura. Até agora nenhum dos povos galácticos, pelo menos, que ele tivesse conhecimento, teve contato com os habitantes desta galáxia. Rhodan informou a meio arcônida sobre a sua suposição.
— Então, estamos a aproximadamente vinte milhões de anos-luz de distância da Via Láctea — murmurou ele, pensativo.
— Deste modo, a paralisia deve nos ter deixado inconsciente por bastante tempo — concluiu a meio arcônida.
Rhodan ouviu passos. Ambos se esconderam atrás de uma porta. Rhodan observou quando duas criaturas humanoides uniformizadas vieram caminhando ao longo da galeria, que, sem dúvida, deviam pertencer à tripulação da estranha nave. A aparência dos soldados desconhecidos lembrava os terranos do sul da Europa. No entanto, as armas que os seres portavam, aconselhava-os a tomarem cautela.
— Eu não acredito que poderemos perguntar a eles o que aconteceu — disse Rosan cinicamente.
Neste instante Rhodan ouviu um rangido atrás dele. Outro soldado estava no salão e apontava um rifle para ele. Nestas situações, ele fazia jus à sua reputação de “reator instantâneo”, com presença de espírito, ele agarrou por cima do cano e arrancou a arma da mão do soldado perplexo. Mas este rapidamente recuperou o equilíbrio e investiu contra ele. Os dois outros soldados tomaram conhecimento do que estava acontecendo e correram para ajudar seu companheiro.
Rosan não sabia o que fazer. Quando os dois soldados saltaram sobre eles, ela levantou os braços. Os dois soldados se viraram para Rhodan, provavelmente eles avaliaram que ele era o adversário mais perigoso e o lançaram no chão com as coronhas das armas.
— Parem! — gritou alguém.
Um homem alto se aproximou deles. Ele era magro, tinha o cabelo negro na altura dos ombros e a pele muito bronzeada. Os soldados o saudaram. O homem estendeu a mão para Rhodan e ajudou-o a levantar.
— Meu nome é Aurec — disse ele num intercosmo perfeito. — Eu quero pedir desculpas pelos meus homens. Eles reagiram com excesso de zelo.
— Isto é você quem diz: — disse Rhodan, irritado. Em seguida, ele se apresentou. — Meu nome é Perry Rhodan. Eu sou do povo dos terranos. Qual é o motivo deste sequestro?
— Vocês não foram sequestrados, Perry Rhodan. Vocês atiraram em nós, por isso paralisamos sua tripulação e depois disto os trouxemos para Saggittor — respondeu Aurec, amigavelmente.
— Mais um que fala na terceira pessoa — resmungou Rosan.
Aurec parecia confuso. Então ele se virou para ela.
— E quem é você? — perguntou ele.
Rosan assumiu a postura de uma arcônida.
— Eu sou Rosan Orbanashol e pertenço a uma das famílias mais influentes do império de cristal arcônida — disse ela com fingida arrogância.
Aurec pegou sua mão e beijou-a.
— Você é bem-vinda — disse ele.
Rosan foi surpreendida por este gesto comum na Terra e, ao mesmo tempo, lisonjeada.
— Ei! — Ela ouviu uma voz familiar. Era Wyll. Ele correu em direção a eles. Imediatamente os guardas levantaram suas armas. Rosan interveio.
— Não, está tudo bem. Ele é meu amigo.
Ela apresentou Wyll ao saggittonense. Wyll não estava muito entusiasmado com o beijo na mão. Ele estendeu formalmente a mão para Aurec. Então, ele pegou a mão de Rosan e segurou-a de forma esclarecedora. Aurec compreendeu.
— Os dois formam um casal. Oh, então provavelmente o seu amigo deve estar com ciúmes — disse ele, divertido.
Wyll torceu o rosto numa careta.
— Porém, eu estou surpreso de como você fala tão bem o intercosmo — disse Rhodan.
— Bem, isso não foi difícil, afinal, tivemos duas semanas de seu calendário para estudar seu idioma e seus costumes.
Os olhos de Rhodan se arregalaram.
— Duas semanas? — repetiu ele, surpreso.
Aurec concordou com a cabeça.
— Nós os alimentamos artificialmente e os mantivemos paralisados até chegarmos a Saggittor, o que acontecerá em breve.
— Eu entendo — disse Rhodan. — Na verdade, quem exatamente você representa?
Aurec sentou-se numa das muitas cadeiras. — Eu sou Aurec, filho do Chanceler Doroc, o regente da República de Saggittor. A nave que trouxe vocês a reboque é a SAGRITON. Estávamos numa viagem de pesquisa, quando por acaso ouvimos o seu pedido de ajuda, nós os seguimos. Depois que a sua nave atirou em nós o comandante da SAGRITON foi forçado a paralisá-los e trazer-nos conosco, porque queremos evitar o contato com os povos do Grupo Local.
Rhodan sentiu um ligeiro arrependimento nas palavras de Aurec.
— No entanto, tenho esperança de que tudo seja apenas um mal-entendido, e que nós trouxemos a LONDON e sua tripulação para Saggittor como convidados e não como prisioneiros — acrescentou Aurec.
Neste momento, Rhodan acreditou no saggittonense.
— Bem, eu sugiro que nós devemos tentar descobrir — disse Perry.
Enquanto isso, a maioria dos passageiros foi acordada e, naturalmente, os Orbanashol e os outros passageiros ricos protestaram veementemente contra isso.
Perry Rhodan descreveu para Aurec a viagem da LONDON. Ele descreveu o status que tinha na sua galáxia e por que ele estava a bordo desta nave. E finalmente ele falou do sequestro por Dannos.
Aurec seguiu o conselho de Rhodan e manteve os seguidores de Dannos sob custódia. Rhodan também informou Aurec sobre a bomba que Dannos tinha escondido a bordo, mas o saggittonense declarou que eles já tinham desativado o dispositivo explosivo.
Um pouco mais tarde, Sam se juntou aos dois, bem como o comandante da SAGRITON, o almirante Dolphus. Imediatamente, Rhodan e Sam sentiram a irradiação de antipatia do militar. Enquanto Aurec tentava ter uma conversa normal, Dolphus esforçava-se mais em interrogar o terrano e o somerense. Dolphus insistia na questão de que a LONDON atirou primeiro na SAGRITON.
Rhodan explicou mais uma vez que isso deve ter sido feito pelos sequestradores.
O terrano contou a Aurec em frases curtas a história e a situação atual da Via Láctea e qual o papel que a organização Camelot. Ele assegurou que da Via Láctea não viria nenhum perigo.
Sam tentou trazer os dois saggittonenses para mais perto da cultura galáctica. Ele os levou através da nave e mostrou a eles as pinturas e estátuas, ele os colocou em frente aos clássicos terranos e assinalou os destaques culturais dos galácticos.
Dolphus estava impressionado, enquanto Aurec acompanhava muito interessado, as observações do somerense. Através da animada narrativa de Sam, os eventos foram expostos diante aos olhos intelectuais de Aurec. Os saggittonenses estavam visivelmente impressionados. Os cosmocratas e caotarcas ainda eram inteiramente desconhecidos para seu povo.
O coração do jovem saggittonense pulsava acelerado com as muitas aventuras cósmicas que Perry Rhodan tinha vivenciado. De bom grado ele teria experimentado pessoalmente ao menos uma delas. Mas a vida em Saggittor sempre foi tranquila. Apenas de vez em quando ocorria alguma coisa fora do comum, que os obrigava a viajar por Saggittor a fim de investigar, mas o Olho Negro não tinha contato com outras galáxias.
Somente quando a superinteligência SAGGITTORA entrou em contato, após incontáveis anors, surgiu algo para fazer outra vez. Por isso Aurec estava cheio de euforia e entusiasmo ao guiar esta expedição de pesquisa. Ele queria conhecer outras culturas desconhecidas. Foi isso que ele conseguiu. No entanto, foi muito diferente do que a superinteligência imaginava. Suas ordens foram claras: pesquisar e só entrar num contato com os terranos em caso de emergência. Mas agora, provavelmente, isso era uma emergência. Ele tinha que fazer o melhor possível. Provavelmente, para o saggittonense, Perry Rhodan parecia um dos seres mais extraordinários do Universo.
O terrano era relativamente imortal e já tinha vivenciado inúmeras aventuras cósmicas.
Imediatamente ele passou a confiar neste terrano. O carisma de Rhodan era impressionante. Aurec estava firmemente convencido de que não havia intenções belicosas em Perry Rhodan. Ele e seu povo deviam ser recebidos como convidados em Saggittor. No fim da visita, os quatro voltaram para a sala de conferência.
Aurec pensou um pouco antes de falar com Dolphus.
— Eu já tomei uma decisão. Os galácticos passam a impressão de serem relativamente pacíficos. Mesmo que eles tenham alguns problemas internos, assim eu acredito que eles não representam um perigo para a República de Saggittor. Perry Rhodan parece ser um homem de importância cósmica. Eu confio nele. Nós libertaremos a LONDON do raio trator e, juntos, voaremos lado a lado para o nosso sistema pátrio.
Ele escondeu o seu rancor pelo estrangeiro. Dolphus tinha pouca compreensão para com eles. Embora Aurec estimasse a habilidade militar do almirante, no entanto, ele não aprovava a forte veia nacionalista do saggittonense. Dolphus pensava com o canhão energético e não com o coração. Era isto que distinguia os dois saggittonenses fundamentalmente tão diferentes. Como esperado, Dolphus expressou a sua oposição. O almirante se levantou furioso.
— Você não pode estar falando sério, Aurec! Eles são inimigos da República. Eles estão presos, serão interrogados e francam...
— Cale-se, Dolphus. Eu sou o comandante da expedição e filho de Doroc. A minha decisão é definitiva. Execute as minhas ordens! — exclamou Aurec rispidamente.
Dolphus corou. Podia-se notar a excitação interna. Mas ele se recompôs.
— Às suas ordens! — exclamou ele entre os dentes e saiu da sala.
Aurec apertou amigavelmente a mão de Rhodan.
— Sinto muito pelas dificuldades iniciais, mas eu não tive escolha.
Rhodan acenou com simpatia.
— Conosco, você pode falar francamente. Talvez...
Aurec sorriu.
— Está certo.
Rhodan segurou a mão do saggittonense.
Neste momento, Arno Gaton e James Holling entraram na sala de conferência. Gaton tinha ouvido as últimas frases quando entrou.
— Não temos outra alternativa! Esta decisão poderia ter sido tomada tranquilamente pouco antes e mais perto da Via Láctea. Estou arruinado! Desempregado! Assim eu pertenço à classe inferior — disse Gaton fingindo estar perturbado.
Aurec se aproximou do porta-voz hanseático. — Sinto muito se você sofreu algum dano como resultado de nossas ações. Faremos o possível para compensar as suas perdas.
— E o que é que você vai fazer? — perguntou Gaton.
Ele não fez nenhum esforço para tratar o saggittonense formalmente. Provavelmente, Sam foi o único que prestou atenção na expressão “você”.
— Temos uma grande variedade de recursos minerais. Eu acho que uma compensação financeira iria satisfazê-lo — respondeu Aurec.
— Concessões comerciais seriam aceitáveis. Direitos exclusivos em sua galáxia!
Aurec concordou, mas ressaltou que antes ele teria que explicar isso para os empresários mais influentes da galáxia.
Gaton começou a sorrir de novo. — Talvez eu ainda volte como um herói — disse ele, para si mesmo.
M-64 — Saggittor
Agora Rosan passava seu tempo perto de Wyll. Ambos estavam sentados num bar no convés panorâmico. Ela observou que os saggittonenses ainda patrulhavam a nave. Attakus Orbanashol e Hermon da Zhart se aproximaram do casal. Mesmo no escuro Rosan pode ver que seus rostos sinistros não revelavam nada de bom.
— Rosan, venha comigo — exigiu Attakus.
— Não! — respondeu ela, friamente.
Attakus olhou em volta. Ele parecia estar envergonhado com aquilo. A cabeça de um arcônida não aceitava uma rejeição tão facilmente. Não era algo que você podia fazê-lo simplesmente.
— Por favor, não faça cena agora. Venha comigo imediatamente! — ele repetiu sua ordem.
— Esses dias terminaram, Attakus — disse ela, determinada.
— Deste, deste modo... então eu vou ter que recorrer a outros meios — retrucou ele com raiva e saiu do convés, juntamente com seu guarda-costas.
Wyll sorriu e abraçou Rosan.
— Você conseguiu! Eu estou orgulhoso de você!
***
Rhodan caminhava inquieto pela sua cabine. Sam estava sentado numa cadeira no outro lado da cabine. Rhodan finalmente também se sentou. De qualquer maneira, a caminhada constante não ajudaria em nada, exceto por alguns quilos a menos.
— O que você pensa sobre este saggittonense? — perguntou o camelotiano.
— Bem, pelo menos, eles são seres eruditos. Este Aurec deixa uma impressão de ser extremamente galante e sincero — respondeu o somerense.
— De fato, Aurec deixa uma boa impressão. Para mim ele parece ser honesto. Por outro lado, esse tal Dolphus é muito perigoso.
Sam serviu-se de um copo chocolate quente de um servo. Ele soltou o canudo antes de concordar com Rhodan. O somerense reconheceu rapidamente que Dolphus não nutria nenhuma amizade pelos galácticos. A tendência nacionalista do almirante não lhe havia escapado. Provavelmente, Dolphus via inimigos da República em todos os seres vivos não saggittonenses. Um típico fascista, mas extremamente perigoso, porque, aparentemente, mantinha uma posição de poder.
Até que ponto suas atitudes influenciaram a mente de outros saggittonenses, nem Rhodan nem Sam eram capazes avaliar. No entanto, ambos estavam certos de que descobririam isso muito em breve. Perry se levantou e olhou para fora da janela, na LONDON isso era para ser entendido literalmente, porque Gaton insistiu que o vidro antigo utilizado na área de passageiros fosse genuíno, naturalmente ele era protegido do espaço sideral por meio de alguma forma de energia. Diante dele estava a galáxia Saggittor que recebera dos terranos a designação de M-64 — “Olho Negro”. Ela transmitia uma impressão fascinante, mas também triste.
Rhodan não conhecia muitos detalhes sobre M-64. A galáxia estava a quase vinte milhões de anos-luz da Via Láctea. Sua estrutura era extremamente incomum. As análises mostravam que a estranha formação era criada por uma região central, que girava exatamente na direção oposta do disco exterior. Exatamente o que acontecia no interior da galáxia permanecia oculto até agora para os terranos e para os outros galácticos.
— No entanto, devemos manter uma porta dos fundos sempre aberta. A tripulação deve, logo que recuperar a consciência, ser colocada em estado de prontidão — disse Perry. — Pois se os saggittonenses não forem tão amigáveis quanto dizem, precisaremos desaparecer o mais rápido possível.
Ele se perguntava como eles tinham sido capazes de superar a grande distância em apenas duas semanas? Os saggittonenses devem ter desenvolvido uma tecnologia ultraluz muito superior.
Naquele momento, soou um sinal acústico do servo da cabine, Sam estremeceu nervosamente. Perry permaneceu calmo. Depois de um rápido olhar para a holotela, ele o convidou a entrar. Era Aurec. Rhodan já esperava a visita do saggittonense.
— Perry Rhodan, neste momento nós alcançamos as regiões exteriores da nossa galáxia. E como o mundo Saggitton está localizado nas regiões periféricas, chegaremos lá em breve. Eu quero que você selecione alguns de seus melhores homens para falarem diante do meu pai.
— Quantas pessoas eu posso levar? — perguntou Rhodan.
— No máximo seis galácticos — Aurec respondeu.
Rhodan pensou por um momento, então ele decidiu levar os representantes dos povos mais importantes. Ele escolheu Sam, Arno Gaton, Spector Orbanashol, o tópsida Terek-Orn, o mehandor Koliput e o apaserense embaixador do Fórum de Raglund, Turkalyl Obbysun.
O camelotiano estava bem ciente de como esse grupo de pessoas era altamente explosiva, mas todos eram de um povo influente e, portanto, tinham o direito de estar envolvidos.
Ele informou a sua “delegação” sobre a situação e pediu união e um comportamento amigável. Os cinco aceitaram o apelo de Rhodan.
Em seguida, todos foram até a ponte de comando para assistir à chegada ao sistema Saggitton.
***
Perdido em pensamentos, Aurec caminhou até a estação de transmissão da LONDON. Naturalmente ele queria voar com a SAGRITON até seu planeta natal. Ele continuava cismado sobre o estranho. Se Perry Rhodan não fosse um ator brilhante, suas intenções pacíficas eram inequívocas. No entanto, Rhodan era apenas um entre muitos. Além disso, o imortal não era o representante de sua própria raça.
Aurec não conseguia entender por que um escolhido dos altos poderes cósmicos não era autorizado a ser o líder de seu povo. Este terrano parecia ter uma estranha concepção de confiança. Se você não pode ser um homem de confiança, então quem pode? Os saggittonenses apreciam a confiança e a lealdade. Um bom regente reinava muitas vezes até a sua morte.
Sem prestar atenção, acidentalmente ele esbarrou numa terrana.
— Sinto muito — se desculpou Aurec e segurou as mãos da atordoada mulher.
Imediatamente Aurec ficou fascinado com sua bela aparência. Ela tinha cabelos loiros até a altura dos ombros, era abençoada com uma silhueta maravilhosa e tinha um rosto igualmente belo.
Cabelos loiros e sedosos. Olhos azuis-claros. Uma visão que Aurec não via com frequência e só era representado na galáxia Saggittor por alguns colonos. O mesmo era verdade para os cabelos ruivos e os olhos vermelhos. Sua aparência era estranha para ele e, ainda, assim fascinante e atraente.
— Posso apresentar-me? Eu sou Aurec. E você quem é?
— Meu nome é Shel Norkat. Você não é da LONDON?
— Não, eu venho de outra espaçonave – a SAGRITON. Eu quero conhecer mais sobre a cultura terrana.
O saggittonense sorriu e pensou se ele realmente deveria fazer isso.
— Permita-me convidá-la para jantarmos está noite.
Shel hesitou um pouco. Aurec amaldiçoou a si mesmo por sua audácia. Isto era algo abaixo da dignidade do filho de um governante.
Ele havia acabado de conhecer os estranhos e já pedira há uma de suas mulheres um encontro como iguais. Aparentemente, a mulher não estava tão entusiasmada com a ideia. Ela olhou para o saggittonense de cima para baixo. Em seguida, ela lhe lançou um breve sorriso. Aurec pensou que a tinha constrangido.
— Eu não sei — disse ela baixinho.
Ela estava completamente surpresa. O que ela estaria pensando agora? Um estranho falou com ela e a convidou para jantar. Aurec não conseguia relaxar.
— Por favor, me conceda este pedido.
Ela pensou por um momento, então ela concordou com um sorriso.
— Excelente. Eu mandarei buscá-la hoje à noite! Por favor, me desculpe, eu tenho que voltar para a minha espaçonave.
Aurec atravessou o transmissor.
“Este povo é cada vez mais simpático para mim”, pensou ele.
***
Quando seu corpo rematerializou-se novamente, a primeira coisa que ele viu foi o rosto de Dolphus. Prontamente Aurec ficou sério novamente. Seu interlocutor tinha adotado uma postura rígida e seu rosto manifestava grande insatisfação.
— Nós alcançamos o sistema. Organizaram um desfile para nós... e para os nossos convidados.
Aurec sorriu.
— Muito bem, Dolphus. Nós podemos anunciar orgulhosamente que encontramos novos amigos com quem poderemos negociar. A expedição foi um grande sucesso!
Dolphus ficou olhando atrás do saggittonense, quando ele deixou a sala de transmissores.
Aurec o havia humilhado. Como ele se atrevia? Dolphus era um almirante e não um cadete. Para questionar sua autoridade na frente de estranhos e diante da tripulação da SAGRITON, era um atrevimento. Um dia, porém, Dolphus jurou vingar-se. Num futuro não muito distante, Dolphus via-se como o líder dos saggittonenses. Porém, não haveria Doroc e nem Aurec.
E então, os saggittonenses também não mais chamariam uma escória, como os galácticos, de amigos.
Saggitton
O sol amarelo Saggit possuía cinco planetas em órbita. Lolton, o planeta interno, era um planeta gasoso e quente, onde à vida não era possível.
Ele era seguido pelos planetas militares da República, Milton e Darmon, fragmentos desprovidos de oxigênio. O mundo principal Saggitton era o quarto planeta. Sendo seguido pelo maior planeta do sistema, Vohes.
Sobre ele orbitavam 33 luas. O planeta em si era um gigante gasoso, com uma atmosfera de hidrogênio e hélio, com massa suficiente para permitir a fusão do deutério. Desse modo, este obstrui o sol criando uma zona habitável, transformando algumas luas em mundos prósperos. Por isso, os saggittonenses, especialmente os mais afortunados, usam estas luas como uma segunda casa.
A SAGRITON voou, seguida pela LONDON, em meio aos fortes espaciais e os gigantescos planetas exteriores até chegarem à órbita de Saggitton. O mundo era parecido com a Terra. Com um diâmetro de 14.098 km, era um pouco maior do que a Terra. E possuía três continentes e duas calotas polares. A gravidade era de 1,03 gravo, portanto muito semelhante a da Terra.
Um esquadrão de caças escoltou as duas naves até o espaçoporto, no centro no segundo continente.
Rhodan estava impressionado. Nos dois continentes havia enormes unidades habitacionais urbanas, enquanto no terceiro havia gigantescas instalações industriais e grandes armazéns e, naturalmente, o gigantesco espaçoporto estava localizado ali.
A paisagem deste continente também proporcionava condições para isso, como indicavam as áreas de desertos e tundra árticas ainda visíveis.
O espaçoporto em si era um complexo gigantesco, que se estendia ao longo de centenas de quilômetros quadrados. Entremeado com hangares-armazéns, centros de reparos, de ancoragem, docas de montagem e quartéis. Formidáveis fortalezas defensivas eram visíveis. Rhodan não se atreveu a pensar quantos couraçados compunham a frota da República de Saggittor, para não falar dos caçadores e cruzadores.
Ele esperava que os saggittonenses realmente tivessem o espírito pacífico, porque a Via Láctea poderia ficar em maus lençóis numa guerra contra eles.
A SAGRITON pousou no espaçoporto, enquanto a LONDON foi colocada num campo de tração e passou lentamente por uma torre com vários corredores. Lá, a nave da Liga Hanseática foi ancorada.
Rhodan se voltou para seus seis companheiros.
— Bem, senhores! Vamos, devemos representar a Via Láctea com dignidade!
Rhodan teve a desagradável sensação de que particularmente Spector Orbanashol e Terek-Orn poderiam causar problemas, no entanto, tinha esperanças de poder mantê-los afastados de confusão.
Depois de deixarem a LONDON, eles entraram num grande anfiteatro, cujo maciço portal foi aberto. Cerca de 200 soldados estavam posicionados ao lado da escadaria que flutuava livremente.
— Eu sinto que aqui é muito militarizado — disse Sam.
Rhodan e os outros desceram a rampa inclinada. Ela era de cor cinza claro.
A seguir, um enorme desfile teve lugar no espaçoporto. Milhares de soldados, tanques e caçadores desfilaram pela Praça de Parada. Por toda parte havia saggittonenses que cumprimentavam os retornados. Aurec apertou a mão de alguns cidadãos. Dolphus, por outro lado foi diretamente para o planador e voou com ele para o Palácio do Governo.
Ele liderou os galácticos até um segundo planador. Depois de um tempo Aurec se juntou a eles e decolou com a aeronave.
— Bem, o seu povo causou uma impressão positiva — iniciou Rhodan. — No entanto, militar demais para o meu gosto.
— Eu entendo suas preocupações, Perry Rhodan. No entanto, você pode ter certeza que o meu pai é um chanceler pacífico e sob seu governo nunca houve uma guerra e nunca haverá — disse Aurec.
— Isso pode muito bem ser possível. No entanto, se esse poder caísse em mãos erradas, ele traria consequências terríveis para toda a galáxia! — objetou Sam.
— Não tenha medo, Sam. Eu sou o sucessor de meu pai. Assim, o poder permanecerá em boas mãos — disse ele gentilmente.
***
O planador pousou na frente do palácio do governo. Rhodan notou que os saggittonenses evitavam edifícios pontiagudos. As torres e casas — em sua maioria tinham tonalidade vermelha ou amarela — tinham formas arredondadas e pequenos cantos e bordas.
O palácio era construído de forma relativamente simples. Três edifícios arredondados, com aproximadamente cem metros de diâmetro, dispostos num triângulo e ligados por pontes. No centro havia um pátio com jardins, fontes e numerosas estátuas. A cor predominante era um amarelo discreto. Os telhados abobadados dos edifícios arredondados contrastavam com a cor amarela num tom vermelho-acastanhado brilhante.
O design interior assemelhava-se a outros edifícios. Cantos e bordas eram evitados nos quartos suntuosamente decorados. Robôs vermelhos e verdes arredondados flutuavam de um lado para o outro. A cor dominante nas salas era um marrom brilhante, muito agradável. Sobre os tetos abobadados eram projetadas imagens tridimensionais da natureza saggittonense. Por isso as paredes estavam nuas.
Alguns guardas levaram Aurec e seus convidados para uma sala de recepção. Ela era luxuosamente decorada. Alguns artefatos eram reais, outras eram projeções. Rhodan notou que os saggittonenses também usavam energia moldável, quando cadeiras estofadas vermelhas materializaram-se do nada.
No meio do salão estava sentado um homem, Doroc, gordo, pequeno. Aparentava ser velho e estar cansado. Ele levantou ambas as mãos.
— Estou feliz que esteja de volta, meu filho — disse ele com voz frágil, a dignidade e a experiência de vida transpiravam dele. A aparência deste homem lembrava a Rhodan, o sábio rei de um antigo conto de fadas.
Aurec foi até seu pai e se ajoelhou. — Eu tenho muito a relatar, Pai!
Doroc olhou para ele com expectativa.
Aurec continuou: — Eu trouxe novos amigos. Estes são os representantes dos galácticos. Eles são provenientes do grupo de galáxias que devemos explorar.
Doroc inclinou-se para olhar melhor para as seis galácticos.
— De tão longe? — perguntou ele, espantado.
Aurec assentiu com a cabeça. Para Rhodan ficou óbvio que Doroc, apesar de seu carisma, já não estava bem mentalmente. Mas Aurec tentou ignorar ou encobrir este fato. Perry deu um passo adiante.
— Eu sou Perry Rhodan, o porta-voz dos galácticos.
Rhodan teve que rir por dentro. Paola Daschmagan ou o Imperador Bostich provavelmente ficariam corados de raiva se tivesse ouvido as suas palavras. Quando Rhodan apresentou seus companheiros.
Terek-Orn fez uma saudação, Sam cumprimentou-o amigável, Koliput trovejou um cumprimento e Spector Orbanashol faz um movimento de cabeça mal-humorado como uma saudação.
— Seja bem-vindo, Perry Rhodan e os outros embaixadores — disse o chanceler lentamente. — Vocês são meus convidados. Meus servos disponibilizarão alojamentos e providenciarão para que não falte nada a vocês.
Rhodan ouviu um leve barulho de aspiração de líquido, vinda de Doroc. Sua pele estava flácida e ele tinha problemas em manter a saliva na boca. Que fluiu lateralmente para fora e ele tentava puxar de volta. Rhodan ouviu uma risada zombeteira atrás dele. Naturalmente só podia ser Spector Orbanashol, fazendo um gracejo com o antigo chanceler em voz baixa. Rhodan lançou um olhar fustigante para ele.
— Agora me diga, por que estão aqui? — quis saber o Chanceler.
Rhodan e Aurec explicaram juntos, como a LONDON encontrou o caminho para Saggittor.
Doroc levantou-se com dificuldades.
— Uma bela história. Agora eu estou com fome. Eu acho que você também. Vamos jantar — decidiu ele.
Rhodan ficou irritado com essa afirmação. Ele esperava que Doroc mostrasse um pouco mais interesse em sua visita involuntária.
***
Juntos, eles entraram numa grande sala de jantar. Os demais integrantes da família de Doroc já estavam na sala. Aurec cumprimentou sua mãe e os dois irmãos. Ele apresentou Rhodan e os outros a sua família. A mãe de Aurec chamava-se Dorna, ela também já era bastante velha, mas tinha uma boa aparência e parecia mentalmente mais ativa do que seu marido. O irmão de Aurec, Baahl, apresentava uma impressão bastante desinteressada, enquanto sua irmã Vespiora era de uma beleza impressionante. No entanto, os dois não davam a impressão de ser tão dinâmicos, quanto seu irmão, que obviamente era o caçula da família.
Dolphus também os acompanhou a mesa. Ele olhou fixamente para Rhodan com seus olhos castanhos-escuros.
Perry sorriu timidamente antes de se sentar em seu lugar. Em seguida, ele se lembrou. Finalmente, ele tinha mais de três mil anos e provavelmente seria capaz de resistir a um duelo de olhares com um militarista. Ele deixou esse pensamento de lado e concentrou-se na comida, que, para seu espanto, era muito parecida com a comida humana usual.
O prato principal foi um Carnaroosa, que era uma espécie de ensopado com legumes saggittonenses e a tenra carne adocicada de um antílope da floresta profunda. Rhodan achou que o tempero era bastante picante. Rapidamente lhe foi servido sorfa de um grande jarro. A sorfa tinha o sabor semelhante a cerveja e Aurec explicou-lhe que era cerveja. E que era costume deles consumir os alimentos picantes com cerveja.
Sam aproveitou a comida para aproximar Doroc e sua família a cultura do terrano e dos galácticos. Spector Orbanashol e Terek-Orn mantiveram-se relativamente retraídos, enquanto Koliput e Gaton se esforçavam para estabelecer relações comerciais com os saggittonenses. No entanto, o apaserense Tuerkalyl Oebbysun estava mais preocupado com a comida e desejava algo exótico. Ao passo que o blue assistia a conversa entre políticos e empresários com o par de olhos traseiros. Perry Rhodan contou a Aurec detalhadamente a história dos terranos, especialmente a partir da história da vida do imortal.
Orbanashol virou-se para Dolphus.
— Você está tão calmo, almirante. Qual a razão para isso? — perguntou ele desafiadoramente.
Rhodan estremeceu interiormente.
O almirante observou brevemente os convidados na mesa, em seguida, ele comentou: — Bem, isso é provavelmente por causa da presença incomum de vocês nesta mesa! Normalmente são servidas na mesa do rei somente pessoas que representam alguma coisa.
Terek-Orn soltou um som grosseiro. — Isso significa que nós representamos nada? Eu sou o embaixador tópsida. Como esse homem pode afirmar que eu não represento nada?
Rhodan agarrou o braço do tópsida, que tentava levantar-se. Furioso, ele sentou-se novamente.
Dolphus apenas sorriu. Então, ele chamou atenção para a mesa.
— Sirva-me ovos de lagarto! — ordenou ele, divertindo-se.
Os olhos do tópsida se arregalaram, mas Rhodan segurou-o no lugar, enquanto Dolphus saboreava os ovos.
— Oh, eles aparentam estar delicioso — achou Tuerkalyl Oebbysun. — Posso prová-lo?
Rhodan ouviu o tópsidas trovejar.
— O que foi agora? — quis saber Doroc, que conversava com Sam e não compreendeu muito bem o motivo da discussão.
— Está tudo bem. São somente pontos de vista diferentes — disse Dolphus.
— Ah, está tudo certo. Nós muitas vezes temos pontos de vista diferentes. Isso não é nada mau — resmungou o chanceler e quis rir, mas terminou num acesso de tosse.
Em seguida, Rhodan expressou que estava muito interessado na história dos saggittonenses. Aurec alertou que Doroc certamente lhe contaria a história da galáxia.
Após cerca de uma hora Doroc se levantou.
— Nós aprendemos muito sobre vocês, Perry Rhodan. Eu devo admitir, os galácticos são um conjunto de povos interessantes. Posso assegurar que vamos fazer negócios com você. Mas agora eu quero lhe contar a história da nossa galáxia...
A vantagem do momento
Rodrom tinha concluído seu trabalho.
Os resultados não foram particularmente reveladores. Os saggittonenses ainda não conheciam os cosmocratas nem as arcas do Caos. Como eles poderiam se tornar um perigo para MODROR? O terrano movia-se na frente dele.
As atividades da superinteligência THOREGON pareciam ser preocupantes. Mas em última análise, MODROR poderia estar com razão sobre a luta entre THOREGON e os cosmocratas. Seu mestre somente poderia tirar proveito, pois seus inimigos se mutilavam entre si.
Perry Rhodan estaria ocupado pelos próximos anos com os segredos de THOREGON. Isso daria tempo suficiente para Rodrom planejar suas atividades, assim como, neste momento, Cau Thon já estava trabalhando na primeira fase do plano grandioso. MODROR sabia sobre o perigo do terrano. Muitas vezes eles tinham derrotado adversários avassaladores. MODROR não queria cometer esse erro. Mas Rodrom ainda acreditava que este alarido sobre o terrano era completamente exagerado. Mas se seu mestre queria desta forma, então ele e seus irmãos agiriam exatamente de acordo com suas instruções.
Há vinte anos Cau Thon vinha recrutando agentes capazes para MODROR na Via Láctea e na galáxia de Dorgon. Seria um insulto para DORGON se todo o seu povo eleito se voltasse contra ele. Mas talvez DORGON suspeitasse disso e quisesse encontrar substitutos em Saggittor?
Pelo menos, assim ele estaria agindo de acordo com sua missão atual. Bem, veremos...
Rodrom foi arrancado de seus pensamentos quando Masor entrou em seu quarto. Ele estava nervoso.
— O que houve? — perguntou Rodrom.
O pequeno kjolle parou e fez uma saudação. — Senhor, perdoe-me por interrompê-lo, mas alguma coisa está acontecendo — relatou Masor.
— O que aconteceu?
— A expedição deste Aurec voltou pelo portal estelar. Ele trouxe outra espaçonave com ele — disse ele.
— Sério?
— Ela vem do Grupo Local. Meu espião relatou que o terrano Perry Rhodan está a bordo.
Rodrom levantou-se quando ouviu o nome de Perry Rhodan.
— Perry Rhodan está aqui na galáxia Saggittor? — perguntou ele, como se não pudesse acreditar.
Masor confirmou a pergunta de seu mestre. — Rhodan está em Saggittor! Nós não sabemos por que ele está aqui. Inicialmente, parecia que esses galácticos eram prisioneiros, mas Rhodan e algumas outras criaturas da Via Láctea foram convidados para uma audiência pacífica com o chanceler Doroc.
Rodrom caminhou pela sala. Como num quebra-cabeça, os componentes foram se juntando peça por peça. Primeiro o aviso de MODROR, em seguida, as informações sobre as pretensões de DORGON de tornar os saggittonenses num povo auxiliar e agora o próprio Perry Rhodan estava em Saggittor. Para Rodrom parecia que DORGON queria jogar com o destino novamente, quando ele tentava tornar os povos saggittonense e terrano em aliados.
“O que aconteceria se ele condenasse os planos de DORGON ao fracasso? E aconteceria se ele destruísse Perry Rhodan nesta galáxia? Isso avançaria os planos de seu mestre em anos. Pelo sangue de um Sargomof, ele não precisaria mais cumprir sua profecia, não seria necessário. Rodrom chegaria antes dele e provaria que não precisava de falsos aliados”, pensou ele.
— Você vai destruí-lo, senhor! — insinuou Masor, como se o kjolle pudesse ler os pensamentos de seu mestre.
— Mantenha a sua frota em alerta. Você pode ir! — ordenou Rodrom com arrogância.
Masor saiu da sala gingando. Rodrom ouviu quando ele deu os comandos em voz alta. Enquanto isso, o Vermelho estabeleceu contato com a WORDON. A figura desconsolada de Zukthh apareceu no holograma.
— O que posso fazer pelo senhor, Mestre? — perguntou ele submisso.
— Vamos voar para Saggitton. Ative a proteção contra localização — ordenou.
— Sim, Mestre. Mais alguma ordem? — perguntou Zukthh.
— Informe as minhas unidades especiais.
Rodrom perguntou-se quem ele deveria escolher. Era óbvio que deveriam ser seres cujos povos tinham sido derrotados por Perry Rhodan. Isso seria mais um incentivo para seus mercenários.
— Eu quero que você, Ark Thorn, Melsos Berool, Glyudor, Itzakk e Scardohn estejam preparando para uma nova missão: a erradicação de Perry Rhodan!
***
Rodrom materializou-se na central de comando da WORDON. A espaçonave já estava pronta para partir. Ele deu a ordem para partir. O objeto gigantesco acelerou e saiu do sistema dos kjolles em direção a Saggitton.
Rodrom foi para a sua sala de comando. Zukthh Já esperava por ele. Ele curvou-se, quando o Vermelho passou flutuando por ele.
— Senhor, os mercenários estão prontos e esperando por suas ordens — informou ele.
— Traga-os aqui! — ordenou Rodrom, conciso.
O ser de capuz obedeceu à ordem de seu mestre rapidamente. Ele deu um sinal a um de seus guardas. Ele abriu as portas e cinco criaturas, todas de raças diferentes, passaram. Eles formaram uma fileira.
Visivelmente um deles teve dificuldades de passar pela porta, porque ele tinha um ombro com 2,50 metros de largura. Sua altura era de 3,50 metros. De seus três olhos brilhantes brilhava a vontade incondicional de usar a força.
Os outros eram humanoides. Um deles até se parecia com os terranos. No entanto, ele tinha pele negra e uma coroa de cabelo vermelho. O seguinte mais se parecia com um cadáver terrano. As maçãs de seu rosto estavam afundadas e a pele curtida. Os olhos estavam afundados em suas órbitas. Depois, seguiu-se um lagarto de dois metros de altura. E por último entrou o seu trunfo, uma criatura de forma enevoada que poderia assumir qualquer forma concebível.
Rodrom caminhou ao longo da fila. — Vocês são os meus melhores combatentes, uma vez recrutados pelo filho do Caos, Cau Thon. Vocês são a mistura perfeita de inteligência e força bruta. Mas você tem outra coisa em comum. Perry Rhodan humilhou ou extingui os seus povos!
Ele olhou para cada um dos cinco seres. Eles não demonstraram nenhuma reação.
Ele não sabia nada sobre eles. Rodrom não sabia exatamente quanto tempo esses cinco mercenários estavam a seu serviço. Quando eles não eram mais necessários, ele os entregava aos casaros. Este renovava suas células e, em seguida, conservava os mercenários no mundo dos sonhos na dobra do espaço-tempo. Os casaros ficavam encantados com a oportunidade de estudar seus campeões durante os sonhos.
Os mercenários estavam conformados com a sua existência. Uma vez que Rodrom quebrou a vontade dessas criaturas orgulhosas, eles comiam em sua mão.
E no caso deles não fazerem isso, ainda havia um circuito de segurança.
Rodrom virou-se para o primeiro dos cinco. Seu nome era Melsos Berool. Ele era um lare. Sua pele escura brilhava sob a luz da sala.
— Os terranos haviam acabado com o Concílio dos Sete. O único culpado por isso era Perry Rhodan!
Rodrom despertou o desejo de vingança do lare. Uma vez ele tinha sido um grande almirante com brilhantes habilidades táticas. O Concílio dos Sete era a sua vida. Pouco antes de ele ser sequestrado, o Concílio iniciara seu plano de ocupar a Via Láctea.
O Vermelho foi para o próximo. Era o hauri Scardohn. Rodrom descreveu a ele como o Príncipe do Fogo foi derrotado por Rhodan e os planos de Hexameron foram destruídos quando a galáxia Hangay mudou-se para o universo normal. O hauri fez uma careta, ficando ainda mais sinistro.
Scardohn veio voluntariamente para Rodrom. Rodrom estava a procura de um combatente e pediu aos Senhores do Concílio dos Sete os melhores guerreiros de sua elite de campeões. Scardohn era o melhor e honrosamente entrou a serviço de Rodrom.
O quarto era o Guerreiro Eterno Itzakk. O grande lagarto exultava de entusiasmo.
— Eu sei que os terranos são os culpados pelo culto guerreiro ter acabado e por isso vou matá-los! — gritou ele.
Rodrom assentiu com satisfação. Em seguida, ele virou-se para o último do quinteto. Era um gigante. O povo deste gigante desempenhara um papel importante na história dos terranos. O colosso chamava-se Ark Thorn e tinha sido um condicionado em segundo grau. Cau Thon salvou-o no último instante, enquanto observava a luta no Sistema Solar no ano de 2437. O condicionado em segundo grau e dolan foram salvos de seu fim. Rodrom precisou manipular o simbionte, para que ele o obedecesse.
Thorn era o mais perfeito de seus combatentes. A força bruta e inteligência notável distinguiam o condicionado em segundo grau.
Esses eram seus cinco campeões.
— Eu escolhi vocês, porque vocês não são apenas combatentes, mas de alguma forma todos estão ligados a Perry Rhodan — disse o Vermelho. — Ele infligiu um grande sofrimento a seus povos e querem vingança. Vocês a terão. Perry Rhodan está nesta galáxia. Ele está a menos de mil anos-luz daqui.
— Nós voaremos para lá e o mataremos! — berrou Itzakk.
— Eu não acho que este é o plano de nosso Mestre — disse o lare Berool sobriamente.
Rodrom assentiu. — Você está certo. Esse não é o meu plano. Só matar Rhodan, seria primitivo e sem imaginação. Vamos fazê-lo com estilo. Ou melhor dizendo – abater!
FIM
A luxuosa espaçonave LONDON foi sequestrada duas vezes. Primeiro pelos comandos dos fanáticos “Filhos da Fonte de Matéria”, antes que a tripulação fosse abandonada num planeta da galáxia UGCA-092, a LONDON foi novamente sequestrada pelos desconhecidos saggittonenses e levada por um portal estelar estranho para o planeta natal deles em M-64.
No sexto livro de Dorgon, Nils Hirseland retrata outros acontecimentos no “Olho Negro”. O título do romance é: O SAGGITTONENSE.
Jürgen Freier
Dannos
Krayg Sascat Dannos é o líder da seita “Filhos da Fonte de Matéria”. Nascido em New Year no ano 1150 NCG. Encontrou cedo o seu caminho para a espiritualidade. A partir do ano 1185 NCG, ele percorreu através da galáxia e estabeleceu missões que deviam ajudar os pobres galácticos.
A partir do ano 1220 NCG, no entanto, Dannos mudou sua atitude. Ele se entregou a décadas “selvagens” de excessos de drogas, festas de sexo e negócios obscuros.
No ano 1245 NCG, ele conheceu o esotérico Grimm T. Caphorn. Ambos se deram bem imediatamente e estabeleceram um negócio de sucesso quando fundaram a Emissora de Trivídeo Astro, que apresenta emoções holográficas com forte cunho sexual, apostas, jogos de azar e doações fraudulentas. Dannos e Caphorn desenvolveram a ideia da “compensação de energia cósmica”, que é uma espécie de bênção divina e passaram a se apropriar das “doações” dos ricos interessados.
No ano 1267 NCG surgiu o movimento “Filhos da Fonte Matéria”, após Dannos ter visto em suas visões psicodélicas, que um dia ele viajaria com um grupo seleto de galácticos para uma fonte de matéria, para lá tornar-se um cosmocrata. Nos anos seguintes, Dannos dedicou-se a ter mais e mais seguidores, investiu seu dinheiro e construiu uma seita.
No ano 1284 NCG Dannos foi contatado pelo cavaleiro prateado Cauthon Despair em nome de Mordred. Despair sabia sobre os planos de Dannos para sequestrar a LONDON. Ele apoiou os Filhos da Fonte de Matéria com armas e mercenários. Despair ofereceu um vírus sintrônico para o hasprone Herban Livilan Arkyl. A instalação foi realizada durante a última fase de construção da LONDON, enquanto Dannos preparou seus homens e mulheres para a “viagem cósmica”.
Em outubro do ano 1285 NCG o guru da seita passou a agir. Ele matou a apóstata Martha Wobbisch a bordo da LONDON. Pouco tempo depois, os Filhos da Fonte de Matéria dominaram a tripulação de LONDON. Mas o plano de Dannos deu errado quando os saggittonenses assumiram o controle a bordo da LONDON e levaram a espaçonave para a galáxia M-64-Saggittor.
Filhos da Fonte de Matéria
Os “Filhos da Fonte de Matéria” — são uma associação religiosa de galácticos, fundada no ano 1267 NCG, sob a liderança do guru da seita “pai” Dannos. O objetivo da seita esotérica é ascender através da fusão mental dos indivíduos num cosmocrata. Eles se sentem um só com o cosmos e rejeitam a vida física. Eles querem ser parte do Universo e viajar em outras dimensões como um cosmocrata, a fim de experimentar as maravilhas do multiverso.
O grupo tem cerca de 150 seguidores e é composto de muitos membros diferentes. Mas todos acreditam nas profecias do pai Dannos e o seguiram de bom grado para a LONDON, sabendo muito bem que iriam sequestrá-la. Mas o “plano perfeito” da seita falhou, quando a LONDON foi sequestrada pela SAGRITON e levada para Saggittor.
Stewart Landry
Stewart Landry é um descendente do lendário Ron Landry, ele serviu como agente da Divisão III da Segurança Solar, sob o comando do lendário Nike Quinto. Ele nasceu na Inglaterra e teve uma infância confortável.
Com 16 anos Landry teve uma experiência que moldaria o seu futuro. Na Escola Secundária de Ciência Birmingham vários colegas desapareceram, incluindo sua amiga de infância Anne. Stewart procurou por ela desesperadamente com o apoio ativo da sua família e finalmente recebeu a notícia de que ela fora sequestrada por um inescrupuloso traficante de sexo e forçada à prostituição por drogas. Ele passou a sua informação para a polícia da cidade de Birmingham, que em seguida empreendeu uma operação para desmantelar a quadrilha de traficantes de pessoas e libertar as meninas. Para Anne, no entanto, a ajuda chegou tarde demais, a polícia encontrou apenas seu corpo.
Meio ano após estes eventos, sua infância mergulhou definitivamente numa orgia de violência. Alguns membros do círculo de traficantes escaparam da prisão e se vingaram terrivelmente de sua família. Casualmente, Stewart não estava em casa e desta forma sobreviveu ao massacre, enquanto seus pais e sua irmã pequena foram assassinados.
Depois que a história chegou aos tabloides galácticos, o SLT começou a prestar atenção nele. Gia de Moleon fez a proposta pessoalmente para ele, para começar um treinamento para agente a serviço na liga, para mais tarde procurar pelos assassinos de sua família. Ao mesmo tempo em que assumiu a tutela dele até a idade de dezoito anos. A partir dessa data suas relações com a chefe da SLT se tornaram tensas, porque ela levava a sua “missão educativa” para com o jovem muito a sério.
Aos 19 anos, ele conclui o treinamento em tempo recorde e foi aceito como agente categoria júnior da SLT. Nos meses seguintes, ele conseguiu encontrar a pista dos assassinos de sua família e finalmente seguiu a pista deles. Isto o levou a uma troca de tiros, no qual Landry matou três dos assassinos. Novamente, de Moleon acobertou Stewart e impediu uma investigação sobre o caso. No entanto, novas investigações, apesar do apoio da chefe da SLT, foram por água abaixo, porque círculos influentes na Administração da LTL evitavam novas perseguições das pistas, que dirigiam entre outras para Mashratan.
Nos anos seguintes, ele fez uma brilhante carreira e foi promovido a agente grau superior na idade de 21 anos. Nesse momento ele foi incumbido de várias missões espinhosas e por mais de uma vez foi capaz de proteger planetas e civilizações do terror de loucos ou criminosos sem escrúpulos.
Em dezembro do ano 1282 NCG, após o ataque em Atlan Village, ele entrou em contato com o filósofo e escritor em língua terrana Jaaron Jargon em Siena e pediu ajuda. Jargão entrou em contato com a organização Camelot e a fim de dissipar a suspeita de que Camelot estava por trás do ataque
Landry, por sua vez, pôde dissipar as dúvidas de que o SLT estava por trás do ataque ao escritório de Camelot.
No entanto, a relação com de Moleon sofreu uma ruptura profunda, uma vez que foi atribuído a ele o acompanhamento da formação de Will Dean. Dean foi encontrado usando seus códigos de acesso secreto, autorizados somente para uso interno de dados, que ele usou em sua tese. A diretora da SLT ficou furiosa e rebaixou Landry a um agente simples. Nos anos seguintes, sua carreira estagnou no SLT, embora ele fosse extremamente bem-sucedido como agente, mas de Moleon ainda se recusava persistentemente a considerá-lo para uma promoção.
Pessoalmente Landry manteve uma vida amorosa extremamente diversificada. Sua reputação como notório destruidor de corações era quase lendária na SLT. Parece que ele é incapaz de assumir um relacionamento duradouro. A razão provavelmente está no fato de que ele ainda não tenha assimilado completamente a morte de sua amiga de infância, Anne.
Características
Data de Nascimento: 02 de julho do ano 1254 NCG
Local de nascimento: Birmingham, Terra
Tamanho: 1,89 metro
Peso: 85 kg
Cor dos olhos: azul
Cor do cabelo: marrom
Comentários: estrutura corporal atlética, reflexos rápidos, humor negro em situações perigosas, gosta muito do sexo feminino e de boas maneiras.
M-64 — Saggittor
M-64 é a famosa galáxia “Olho Negro” — (também conhecida como Olho do Diabo). A estrutura escura é uma formação de poeira conhecida que encobria as estrelas por trás dela.
Principais raças: saggittonenses, holpigonenses, varnidernenses, troetternenses, multivonenses, kjolles, niders
Dados Astronômicos:
Ascensão reta: 12h 56m 44sec
Declinação: + 21 ° 41 '
Distância: 24 milhões de anos-luz
Magnitude Visual: 8,5 mag
Tamanho aparente: 10’ x 5.4'
Na galáxia giram dois discos de gás em direções diferentes, de modo que os gases das regiões periféricas se interpenetrem perdendo o momento angular e caiam no núcleo da galáxia. A causa deste efeito é o fato de que, no passado, foi a captura de uma galáxia anã elíptica, causada pela rotação contrária do disco interior empoeirado.
No âmbito do projeto, na região central de DORGON é caracterizada por extensas concentrações em massa de poeira cósmica e matéria escura, que serve aos povos auxiliares de MODROR como uma área de preparação. Para os demais povos de Saggittor esta área é inacessível, porque as vastas concentrações de massa causam efeitos hiperfísicos no núcleo, tornando impossível uma transição segura no continuum de nível superior.
1Nota do Tradutor: bekkars são como pragas em espaçonaves arcônidas e são encontradas em muitos planetas. Eles se parecem com os ratos do planeta Terra. É dito que os bekkars têm um senso de perigo altamente desenvolvido, porque sentem os eventos muito antes deles ocorrem. Quando eles saem de uma nave, em seguida, provavelmente fizeram sua última viagem. Há informações de que os bekkars são usados como mascote das tripulações das espaçonaves. Os sons que os animais emitem, têm um efeito calmante sobre o sistema nervoso autônomo. A multiplicação dos animais é realizada por divisão celular, de modo que a população é estritamente controlada. A taxa de reprodução é tão alta que supostamente um comerciante, com apenas um bekkar encheu uma estação espacial após apenas três dias. A mutação dos bekkars os tornou particularmente suscetíveis a uma doença semelhante à raiva. Nota: A propriedade dos bekkars, com seus sons para acalmar os outros seres vivos, e sua imensa taxa de crescimento são tomadas como referência a partir do universo "Star Trek". Michael Marcus Thurner retira dos tribbles do episódio de Star Trek "The Trouble with Tribbles" e do 9º episódio de Deep Space "Trials e Tribbleations".
2 Nota do revisor: Triangulum é a designação para a quarta maior galáxia do Grupo Local; é parte da área de influência de AQUILO. Nos catálogos estelares terranos, aparece também sob os nomes M-33, NGC 598 e Cata-vento. O nome kartanin é Ardustaar.
3 Nota do revisor: Gia de Moleon nasceu em Marte e foi ao longo das suas carreira descrita como tendo uma "aparência tímida", principalmente sua atuação estritamente conservadora, estilo discreto e incolor de vestir, podem ser atribuídos.
4Nota do tradutor: cidadão ou habitante do planeta Camelot.
5 Nota do revisor: Erranternohre é uma galáxia esférica com um diâmetro de 180.000 anos-luz. A mais de 18 milhões de anos atrás, era o ponto de encontro dos Sete Poderosos e também teve papel proeminente na Luta entre os altos poderes dos cosmocratas e caotarcas.
6Nota do tradutor: sistema de armas Multi-Hipervariável que consiste de um radiador térmico, um desintegrador e um paralisador.
7Nota do tradutor: os zievohnes são um povo humanoide da galáxia distante Barym. Eles servem as forças do Caos. Mais nada sobre eles é conhecido, exceto que eles são bastante lacônicos. Seu corpo está envolto num manto, com a cabeça coberta com um capuz.
8Nota do tradutor: uma prequela (em inglês: prequel) é um termo não dicionarizado em português utilizado para se referir a uma obra artística que contém elementos passados no mesmo universo ficcional, ou universo paralelo, segundo o contexto que uma narrativa prévia completa, desde que esses elementos ocorram anteriormente aos narrados no primeiro trabalho. Trata-se de um neologismo surgido no inglês, formado por pre (antes) e sequel (um trabalho realizado após outro, sequência). O termo passou a ser de uso comum com a popularização do surgimento do primeiro episódio da Guerra das Estrelas (Star Wars – A Ameaça Fantasma). Uma variação é prequência, formada a partir da palavra "sequência". As prequelas podem debruçar-se ou não sobre o mesmo enredo que o trabalho do qual são derivadas. Muitas vezes, explicam o passado que levou aos eventos mostrados na narrativa original, mas, por vezes, as conexões não são explícitas.